10 de fev de 2016

Universal da mão do diabo

Livros do mesmo autor. Leitores, o Macedo é para o Cristianismo o que o McDonald's é para a nutrição: leva nome de alimento mas pode matar depois de uns anos de consumo. Impressiona e entristece ver que a Universal ainda faz discípulos como linha de produção, o fiel entra por uma porta e sai pela outra falando, pensando e agindo como seu ídolo, o Macedo. 

Estava no shopping com a mulher e vi o pôster do filme dele, Dez Mandamentos. Um pequeno asco me subiu pela espinha - o mesmo que me passou quando vi Percy Jackson: Mar de Monstros. Em ambos os casos, como puderam fazer isso com uma história tão boa!? No caso do Macedo, não era de surpreender que estaria nos cinemas logo. Prever seus movimentos futuros não é difícil, não se precisa de revelação profética, basta buscar saber contra o que pregava no começo de sua carreira e esperar que vire sua próxima doutrina hoje. Lembra como ele - e toda trupe da Universal - falava da Xuxa? Pactos com o diabo, símbolos satanistas, etc. Agora ela trabalha para ele. Legal. Na globo ela era do diabo, na record é de gezuz. Bacana, bacana.

O Macedo criticava a igreja católica e fazia pregações contra essa acusando-a de roubar dinheiro, de comercializar a fé com venda de artefatos sagrados (santinhos, rosários) e por investir em templos inúteis que sustentavam sacerdócios pagãos. Olha só, agora ele é o que mais vende paninhos, chaves, baús e parafernálias ungidas, desvia dízimos e tem um templo - muito maior do que qualquer católico - onde se vestindo de rabino prega como se fosse sacerdote. Nossa, ortodoxia que não tem por onde!

Antes, ele dizia que a globo era do diabo, claro, colocava mulher pelada na tela o tempo todo e tinha novelas espíritas. Agora a record passa A Fazenda e tem novela de vampiro. Tá certo.

Antes, eles chutavam santas e invadiam terreiros de religiões afro. Agora, pregam tolerância e respeito à diversidade religiosa.

O Macedo é o grande cemitério maldito do entretenimento brasileiro, o que de lixo se enterra lá, ressurge e aterroriza as mídias nacionais.

Pensei que depois de tanto escândalo e quadrilha a Universal ia perder força. Graças ao bom senso, vem perdendo. O problema que não previ eram os frutos. Valdemiro, fruto dele, igreja gigante. Agenor Duque, fruto dele, igreja gigante. RR Soares - coitado, tão quietinho vendendo o pão de queijo religioso dele aos idosos -, fruto dele, igreja gigante. Não contei com os filhos desse leviatã todo. Mas como todo negócio de sucesso, sofrer plágio é inevitável. A Mundial do Poder, a Plenitude do Trono e a Internacional da Graça fizeram fama pregando certas ênfases macedianas. O milagre, o exorcismo e a bênção. O cowboy suado foca no milagre, o guerreiro gordinho no exorcismo e o vovô palmirinha fica na barganha celestial. Saíram e começaram suas próprias empresas se tornando duas vezes mais filhos da perdição, como Jesus disse. Show de bola.

Por fim, acho que é bem isso, o autor de ambos livros da imagem foi o mesmo, o capiroto. 

Guilherme Adriano

15 de dez de 2015

Retrospectiva Teológica (2008-2015)

Se você acompanha esse blog há tanto tempo, que legal, troféu para você, pois nem eu consegui me acompanhar nessa teologia toda que tentei fazer. Sim, é aquela chatice de metareflexão que ajuda uns poucos que se interessam pela coisa - sabe, criar vínculos entre escritor e leitor, blábláblá. Vai que um dia fico famoso e rico com isso aqui. 

Revisitando textos antigos, consigo lembrar da situação, motivação e objetivo de escrevê-los: de saco cheio com a vida, depressivo, irritado com ignorância e mundanice, inquisitivo, apologético, defensivo, apaixonado, na faculdade, matando aula, na casa de amigos, tomando café por aí, de madrugada, no sofá da casa dos outros, no carro, na garagem, no terraço, enquanto aluno fazia prova, depois de conversas com mendigos, com teólogos, filósofos, pastores, padres, amigos(as), nos EUA, no Canadá, em SP, em Curitiba, na praça no centro de Timbó (8 horas conversa, meu record!), na Furb (tantas vezes na Furb!), no ônibus, escrevi em tantos lugares, ao redor e à companhia de tantas pessoas diferentes, durante períodos tão diferentes, passando por problemas e bonanças, enquanto aluno, enquanto professor, enquanto ambos, solteiro, namorando, com carro, sem carro (na minha vida isso fez diferença!), crendo, não crendo, evangélico xiita, protestante, Ortodoxo-wannabe, liberal, enfim. Cada texto aqui tem um contexto, e cada contexto é formado de pessoas e ideias que fizeram importante parte da minha vida. 

Se você ler o blog, vai suspeitar pelo teor do que está escrito. Se você é meu amigo ou me conhece, vai talvez entender o contexto do texto e entender o que quis dizer. O que ficou bem claro é o quanto a teologia do indivíduo, tanto no âmbito teórico quanto no existencial e fenomenológico - há quem diga que são o mesmo, mas daí o problema é deles - muda. Muda muito! Qualquer um com um coração que arde e uma mente que não para com respeito ao divino, sabe que quando lê a si mesmo de longas datas fica estupefato com o quanto muda de ideia. E não poderia ser diferente. Teologia é sempre uma tentativa: ela sabe que o que tenta saber não se pode ser sabido, Deus. Nunca consegui me firmar em um ramo da teologia por muito tempo, não por ser herege e querer pecar, mas porque não há um ramo que satisfaça ou pinte um quadro admirável de Deus. Todos têm problemas graves que implodem o sistema todo (pelo menos no meu coração e na minha mente). O sistema católico não passa pelo escrutínio da Bíblia ou do Evangelho, o sistema Ortodoxo é descontextualizado demais de nosso mundo e super burocrático, os sistemas protestantes (falo do Calvinismo, Arminianismo, Molinismo e Teísmo Aberto e suas variações) são mortalmente lógicos e acabam jogando nas mãos de Deus a culpa da maldade, os sistemas liberais tem mais cara de socio, antropo, psico e filosofia ... então continuo sem poder completar a seguinte frase: Esse blog é um blog cristão de linha _____. Claro, católicos me chamam de protestante, os protestantes de liberal, os liberais de ortodoxo, etc., mas ainda não consegui identificar esse blog com um dos rótulos da "raça" cristã. Acho que como Erasmo vou apenas dizer que sou cristão e que qualquer outro título anexo a esse seria sacrilegium, roubar o que pertence a Deus. Então apesar de não querer cuspir nos pratos em que comi teologia, não posso também honrá-los. 

Quando - e se - ler o blog, espere encontrar ruminadas as obras e teologias de Blaise Pascal, toda obra de CS Lewis, consequentemente GK Chesterton, Ravi Zacharias, Ariovaldo Ramos, Ed René, Caio Fábio (o trio brasucas!), Frank Schaeffer, Michael Hardin e Orígenes (quantos me queimariam por dizer isso!), William Lane Craig (e quem nunca?), Frank A. Viola e os rabinos Aryeh Kaplan e Manis Friedman. Na música (a melhor teologia que há!), Keith Green, Larry Norman, Phill Keaggy e João Alexandre. Claro que há mais, mas esses nomes foram os que mais reformaram o que penso. Muita história da igreja e sociologia também. Já no lado pessoal, grandes influências foram meu sempre querido Sydney e minha amada irmã Ingrid, Alexander e Dino, Eduardo Kokinho (o nerd!), meus amigos ocultistas e ateus, meus alunos e minha Jamille (Jay Jay) - aliás, é impressionante o tanto de teologia, de Deus e de bíblia que se aprende em um relacionamento! 

Meu maior objetivo com esse blog, até então, foi ficar famoso e rico ... brincadeiras à parte, é isso aí, rico e famoso. Mas agora falando sério, sempre quis ser teólogo ou escritor (sabe, aquelas vaidades boas), mas como ser ambos custa tempo e dinheiro, decidi fazer tudo por aqui mesmo, na amadoriedade (essa palavra existe, segundo o google, há apenas um link onde aparece, e isso já é o suficiente para mim!). E assim que ficarei: escrevendo, escrevendo e escrevendo e levando o blog até o islamismo tomar conta do Brasil e acabar com a liberdade de expressão da internet (se o PT não fizer isso antes, claro).

Depois de 7 anos de blog, 1 livro e 1 ensaio, podcasts, leituras, conversas, pregações (dadas e recebidas) e uma vida ávida de oração, posso dizer que dessa bagunça toda sai o que sou hoje, o que não é muito diferente do que era quando tropecei em Jesus (ou dependendo da teologia, quando Ele decidiu tropeçar em mim) mas que também é completamente diferente do que era quando tropecei (ou fui tropeçado). Todo cristão passa por essa sensação paradoxal de, depois de sua conversão, não mais mudar quem é, mas estar sempre mudando. Ser como um católico, não arredar o pé de quem se é na igreja de cristo. Ser como um protestante, estar sob reforma constante. E ser liberal, estudar tudo e reter o bom. 


Dicas para o ano novo: leia o Novo Testamento. Leia os Profetas. Leia os Eclesiastes, Salmos, Provérbios e Jó. Converse com quem entende de Bíblia. Se tiver saco e estômago, leia o Pentateuco. Não se bitole em um sistema teológico, leia outros. Não defenda o cristianismo, defenda o Evangelho. Leia os clássicos cristãos. Estude o catolicismo, os reformadores, não se esqueça dos irmãos gregos e dos liberais, leia tudo se puder. Congregar é bacana, pode ser essencial, mas não é necessário. Enriqueça sua mente com fantasia, música e artes no geral. Não caia na armadilha do intelectualismo nem na tentação do anti-intelectualismo. Não existe batalha entre fé e razão, religião e ciência, só daqueles que definem os termos. Não seja inquisidor e caçador de hereges. Tente ser amigo dos que consideras herege. Absolutamente esqueça esse papo de condenar pessoas ao inferno, elas já estão nele, tire-as de lá. Ortopraxis primeiro, ortodoxia depois. Estude a história do casamento e da sexualidade, vai te poupar muito incômodo bíblico. O único Jesus que as pessoas entendem é aquele que sua vida pratica, suas palavras não valem nada. O único amor de Deus que as pessoas recebem é aquele que vem através de você, o resto é gramática. Ore muito. Ore mais um pouco. Quando ateu, seja um ateu cristão. Quando duvidar, duvide mas confie. Quando desconfiar, relaxa, Deus te ama. Lembre-se de que teologia não é o evangelho. Acima de tudo, imite Jesus em tudo, e não se esqueça de usar protetor solar.

Guilherme Adriano

3 de dez de 2015

Irmãos protestantes e católicos, não ...

Deus se importa com pessoas mais do que com Sua glória, e é por isso que Ele a deixou lá em cima para se tornar um de nós aqui embaixo (Flp 2:7) e, consequentemente, nos unir a Ele e uns aos outros. Ele não nos criou para o adorarmos, Ele nos criou para nos amar. Ele não nos fez para que o déssemos algo, Ele nos fez para nos dar algo – a si mesmo! Um Deus que cria buscando ser glorificado não é muito diferente de alguns de nós – por isso descarto teologias que põe a criação à serviço da glória de Deus. Como Irineu já havia dito lá nos primeiros séculos do cristianismo, Deus criou porque quis beneficiar outros e não para Sua glória. Ele não nos fez por necessidade, mas por desejo. Diferente da religião organizada, a adoração cristã não é um serviço prestado a Deus, é um serviço prestado ao próximo em agradecimento ao que Deus, em Jesus, fez para nos trazer de volta. As melhores e mais bonitas religiões ainda são um lixo quando comparadas à vida de Jesus - como Ele tratou as mulheres, os oprimidos, os inimigos, se relacionou com o mundo e com o Pai.

Infelizmente, nossos sistemas teológicos (mesmo os melhores!) fizeram Deus egoísta, egocêntrico, autoapaziguador, distante, burocrático, criador de maldades e sofrimentos, o sádico infernalista, o punidor vingativo, o terrível juiz, o pai irado, o temível soberano, o rei implacável, o inflexível moralista, o salvador elitista, o amigo e amante condicional, a divindade barganhista, o cambista espiritual e o Deus menos que divino. Nós fizemos Ele ter nojinho (como em Divertidamente) de pecado e ódio de pecadores. De acordo com nossas melhores teologias, ou Ele condena pessoas por fazerem exatamente o que Ele as predestinou a fazerem (para o louvor de Sua glória, claro), ou as pune por fazerem aquilo que Ele sabia que inevitavelmente fariam.  Ah, que ironia: sistematizamos Ele para que matasse e odiasse enquanto amasse e confortasse. Em outras palavras, no princípio, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Um tempo depois, nós o fizemos à nossa. Mas não muito tempo atrás, Ele tomou nossa imagem – em Jesus - para nos redesenhar à imagem original.  


Jesus é o ideal de Deus que Deus possuí. Jesus é a definição que Deus dá a Deus. Jesus também é o ideal de homem que Deus pensou. Jesus é como Deus é e como todo homem deve ser, também disse Irineu.  Onde a religião e a teologia falham, Jesus tem sucesso. Agora no natal, vou tentar esquecer a religião cristão e olhar para Jesus, e com Ele, de baixo para cima, aprender como Deus é. 

Guilherme Adriano

1 de dez de 2015

This mundo is cabrero

Tanto Tic-tac
Desde o Big-bang
Eu só queria Bye-Bye

Às vezes
Eu penso
Que sometimes
Já não dá mais 

E ainda
Que eu sinta
Forgiveness
Que não caiba mais
É duro
Absurdo
O que happens
In this mundo 

Na tv
O pastor diz
Que Jesus diz
Que money nos faz feliz
Mas não see
Que isso aí
Dos males é a raíz 
Poder, orgulho e greed 

Às vezes
Eu penso
Que sometimes
Já não dá mais 

Político 
Que pega nosso salário 
E enfia na última sílaba 
De sua profissão
Money que é good nós não have, diziam,
Mas eles have the montão

E ainda
Que eu sinta
Forgiveness
Que não caiba mais
É duro
Absurdo
O que happens
In this mundo 

Guilherme Adriano

7 de set de 2015

E o que Salomão diria?

Uma década conversando, debatendo e aprendendo religião depois, já vi, ouvi e presenciei muita coisa. Mas ainda me surpreendo quando alguém vem contar como inventou a roda espiritual ou descobriu o fogo divino e finalmente chegou a Deus por vias que Jesus ensinou não andar. Claro, fico com o pé atrás. Fico com o pé atrás porque me parece, como já escrevi há anos atrás, que tudo vale, menos o que Jesus ensinou. Eles me dizem que para transcender, experimentar Deus, amor, ser curado, etc (o que não é novidade para o cristão), devo fumar isso, tomar aquilo, visitar tal-tal, regredir tal-tal-tal, conversar com fulano, orar com beltrano, sacrificar x, ofertar y, comparecer a evento z, seguir essa dieta, respirar dessa maneira, esvaziar a mente disso, encher a mente daquilo, pagar essa penitência, orar tantas vezes e com tais palavras, etc. Enfim, é tanta burocracia espiritual que me canso só de ouvir. Um Deus que necessita de rituais de transcendência para ser acessado é um Deus que ama pouco, pois não ama o suficiente ao ponto de nos aceitar como somos e vir aonde estamos. Há pouco conversei com um colega querido que me recomendou o uso de chás para experimentar cura interior e autoconhecimento. Não descartei a possibilidade da coisa funcionar, afinal, muitas substâncias podem deveras abrir a percepção para outras realidades. Mas, por Cristo, por que ia pagar por algo que tenho de graça? A experiência que muitos emulam com substâncias tenho de graça há uma década (em relacionamentos humanos e divino). O uso de substâncias na religiosidade é muito antigo. Mesopotâmicos, Chineses, Gregos, Indianos, índios, a lista vai longe, todos usaram com propósitos religiosos. Chegaram lá? Talvez. E se chegaram, pessoalmente falando, não gostaria de chegar lá também no estado em que chegaram. As experiências que conheço pessoalmente aconteceram mais ou menos assim: usaram, chegaram, e uma vez lá, descobriram que os filhos de Deus já estavam lá há tempo sem precisar de nada daquilo e ainda levaram uma  bronca de Deus por irem a Ele por tais meios, tendo de abandonar tudo e começar de novo.

Mas, sinceramente, em termos espirituais, usar algo para me conhecer melhor ou alcançar cura seria uma regressão e não evolução. Seria precisamente uma muleta. Um irmão meu querido, depois de experiências com substâncias, chegou à mesma conclusão minha, que usei muito pouco. Outros amigos, que eram médiuns, disseram que entrar no terreno dos alucinógenos não é uma boa ideia; disseram que é mais ou menos como a sedução de Joãozinho e Mariazinha: é bem doce, mas daí se descobre que a casa pertence à bruxa. Se já de cara limpa espíritos enganam com facilidade, imagina em consciência alterada?

Jesus ensinou que a verdadeira espiritualidade começa com a verdadeira fisicalidade e verdadeira sobriedade. Nada de catalizadores, devemos trilhar o caminho da conversão: autoconhecimento, arrependimento, mortificação, novo nascimento e sanificação. Aliás, ainda disse que caminhos alternativos são perigosos e pertencem a ladrões (João 10:1). Espero sempre preferir andar sóbrio, na luz e no amor, do que em consciências alteradas, às escuras e em mistérios. Nada contra quem assim quiser tentar, mesmo, boa sorte e oro por vocês, mas melhor do que se aventurar em substâncias é me conhecer (e a Ele) sem elas. Enquanto se pode mostrar 10, 20 e até 30 que tiveram experiências ótimas com isso tudo, posso mostrar 40, 50 e mais que disseram que no começo é ótimo, mas depois ...

Na verdade, a espiritualidade de substâncias alcança exatamente o mesmo resultado da espiritualidade psicológica que vemos em cultos de massa neo-pentecostais. É catarse. Indução a estados alterados de consciência que geram sensações de expurgo e alívio. Não dura muito e o efeito vicia. O veículo (a substância ou o culto) logo se torna o remédio em si e o deus que se busca. O que se acaba buscando em doses de espiritualidade assim é a sensação de Deus, e não Deus em si. A longo prazo, acostuma o usuário a criar ídolos de sensações. É o tipo de armadilha que o cristão aprende a reconhecer logo. A diferença entre a espiritualidade de muitos neo-pentecostais, de xamãs e médiuns é método, só método. Todos ficam de porre e acham que encontraram Deus. Talvez experimentem uma mudança positiva, o que é legal, mas encontrar-se com Deus e se tornar Seu filho não significa ter uma mudança para melhor. Quem acha isso não leu ou não entendeu o que Jesus ensinou. Qualquer um pode se tornar uma pessoa melhor. Lewis já nos alertou sobre o erro de achar que o propósito da religião, e o papel de Deus, é melhorar a pessoa. Melhora moral não significa proximidade de Deus.  

Espíritas, espiritualistas e animistas são, de certa maneira, assim como muitos cristãos de tradição católica, filhos da espiritualidade platônica. Não digo isso com nojinho de Platão ou preconceito, mas com pesar. Essa espiritualidade distanciou Deus do mundo e criou uma dicotomia que ainda é lente exegética dessa gente toda: existe o lá e o aqui, o sagrado e o profano, a matéria e o espírito, etc. Essa separação toda existia, de acordo com Jesus, mas foi destruída com Sua morte. A separação que existia deixou de existir (o reino vem a nós). A morte morreu (há a ressurreição). O véu rasgou (Deus passa a habitar em nós). As coisas celestiais são nossas (vida eterna, amor divino e perdão). E tudo isso de graça, basta abrir mão da independência espírito-existencial. 

O cristão tem o privilégio de experimentar da total e completa e legítima espiritualidade de Deus sem seção espírita ou invocação ou transcendência alguma, graças a Deus! 

A cura da alma vem do arrepender, confessar e se reconciliar, não de substâncias alucinógenas. A presença de Deus vem com a oração de um coração humilde, não do misticismo. O mundo espiritual vem por vários meios, é verdade, mas o reino de Deus e Sua presença, só da maneira que Jesus ensinou mesmo. 

Não há nada de novo debaixo do sol, diria Salomão. Sempre haverá uso de algo para transcendência. Mas também sempre haverá Jesus dizendo: tsc, tsc, tsc, pra quê? é só orar, cara ... é só orar. 

Guilherme Adriano

21 de ago de 2015

Vestibular celestial

Um dos pontos fracos do cristianismo ocidental é o vincular da salvação da alma ao crer corretamente (ortodoxia). Em muitas tradições do cristianismo, você só pode ser amado, adotado, salvo e transformado por Deus a partir do momento que tiver as opiniões corretas a respeito de teologia, política e ética (coitada da minha nona!). Nelas, salvação não é por conteúdo de caráter nem fé, é por opinião correta e adesão a doutrinas. Transformaram salvação em vestibular - e tem um monte de igreja dando cursinho pré-salvação. 

Imagino a prova já:

O indivíduo chega diante do trono de Deus para prestar contas e o Espírito o senta, o Filho lhe entrega uma prova e o Pai começa com as instruções: 
- gente, atenção. Vocês tem 2 horas para responder todas às questões, que devem ser respondidas a caneta vermelha (qualquer outra cor será punida com fogo eterno). A nota de corte é 9, não serão toleradas rasuras ou qualquer erro. A quem passar, eu os amo! A quem reprovar, eu os odeio e punirei! 

Boa sorte, 
Deus

Assinale a alternativa correta:

1) A respeito da doutrina da natureza divina de Deus, podemos afirmar que Deus é
a - três
b - apenas um
c - apenas um em três
d - todas respostas estão corretas 

2) Com respeito à doutrina do inferno, devemos dizer que a ortodoxia de Deus é
a - tormento consciente eterno (condenados sofrem para sempre)
b - aniquilacionismo (condenados sofrem por um tempo e são destruídos para sempre)
c - universalismo (todos são salvos)
d - morte eterna (ressuscitados, julgados e destruídos para sempre) 

3) Soteriologicamente falando, podemos afirmar que
a - a morte de Cristo foi vicária (ele foi punido pelo Pai em nosso lugar)
b - a morte de Cristo foi um resgate das mãos do diabo
c - a morte de Cristo foi uma vitória sobre a morte, pecado e o diabo
d - a morte de Cristo serve como exemplo de amor a ser emulado apenas 

4) Ainda soteriologicamente falando, podemos dizer que
a - Jesus morreu por alguns apenas
b - Jesus morreu por cada e todo ser humano 

5) O mistério da predestinação divina significa que
a - Deus elegeu alguns à salvação e alguns à perdição (incondicionalmente)
b - Deus elegeu alguns à salvação e alguns à perdição (condicionalmente)
c - a eleição diz respeito à nação de Israel apenas
d - nenhuma das alternativas estão corretas

6) Assinale a alternativa em que o indivíduo é salvo
a - Juliana faz sexo e não é casada, mas vai à igreja e ama o Senhor
b - Gabriel, cristão, pensa que legalizar a maconha seria bom à sociedade
c - Emanuela, cristã, pensa que aborto nem sempre é pecado
d - Mariana é Católica, mas admira Lutero 

7) Sacramentos são
a - literais e necessários 
b - literais e opcionais 
c - simbólicos e necessários
d - simbólicos e opcionais 

8) A respeito do homossexual, podemos dizer que 
a - deve deixar de ser homossexual
b - pode ser salvo permanecendo homossexual (não praticante)
c - pode ser salvo permanecendo homossexual (praticante)
d - foi entregue a si mesmo como réprobo e não há salvação

9) Somatória: Da Bíblia, podemos dizer que 
01 - é a palavra de Deus, inerrante em todos aspectos e deve ser crida por inteiro
02 - contém a palavra de Deus, inerrante em alguns aspectos apenas  
04 - é inspirada em Deus, escrita por homens
08 - é inspirada por Deus, escrita pelo Espírito através de homens
16 - criei tudo em sete dias literais de 24 horas
32 - o relato da criação de Gênesis é uma mitologia / alegoria / metáfora 
Soma: ______

10) A respeito das naturezas divinas de Jesus, podemos dizer que
a - Ele é foi homem, pois deixou sua divindade com o Pai
b - Ele é Deus em aparência humana
c - Ele é divino, mas não divindade
e - Ele é homem e Deus ao mesmo tempo

Para muitos, Deus filtra seu amor através de provas celestiais assim ... 

Guilherme Adriano





12 de ago de 2015

O papa é pop

Papa Francisco pediu perdão pelos abusos e crimes da Igreja Romana durante a conquista das Américas, contradizendo o Papa Nicolau V e Alexandre VI; disse que não é alguém na posição de julgar homossexuais; celebrou culto em outras denominações cristãs e em templos judaicos; afirmou que a Igreja está de braços abertos a divorciados e recasados dizendo que "eles sempre pertenceram à igreja"; chamou protestantes e pentecostais de irmãos, ignorando o anátema oficial da contra-reforma; escolheu viver com simplicidade ao invés de no luxo do vaticano; beijou o pé de uma muçulmana; criticou sua própria Igreja e a chamou de "obcecada" por aborto, sexo e contraceptivos; criticou a igreja por colocar dogma à frente do amor; tem atitude muito diferente da oficial com respeito à teologia da libertação; luta pelo espaço das mulheres na Igreja; deu a entender que ateus e não católicos podem ser salvos; argumentou para uma revisão na doutrina do celibato; foca seu papado no auxílio aos pobres; e por último, ele é a cara do C.S.Lewis.

Se todo clérigo católico que prega pregar no teor de Francisco, o catolicismo terá um bom futuro no Ocidente.

Guilherme Adriano

30 de jul de 2015

Trigo tem que perdoar

Só posso falar de perdão a partir da minha experiência com ele. O que falo do perdão é o que consigo fazer com ele. Começo concordando com Ariovaldo, perdoar é literalmente perder e doar: perco meu direito de retribuir e doo amor (pelo menos é isso que a gente sente tendo que perdoar). Em minha vida, até então, também descobri que perdoar não é esquecer – nada novo. Apesar de não ter sido muito machucado, sofri umas perdas que doeram fundo. Quando orava para ter o poder de perdoar (creia-me, não é nada natural perdoar!) pensei que a lembrança dolorosa desapareceria ou pelo menos deixaria de ser dolorosa. Errei nas duas cogitações. Ainda lembro e ainda dói. Claro, não sou mais impelido a cada minuto a lembrar com ressentimento como era no começo, mas de vez em quando sinto saudades dele e deles.  Não oro mais para esquecer, mas para perdoar. Aliás, começo a pensar que perdoar é exatamente olhar para aquilo que não consigo esquecer e dizer “vou amar apesar da lembrança”, e assim, curando o lado culpado, ser também curado. Perdoar não desfez meu passado, mas deu outros olhos para encará-lo. Minha vida (e a de outros envolvidos) continuou não porque esquecemos ou porque não dói mais ou nem porque aprendemos a viver sem, mas porque perdoamos. E acho que isso não tem nada a ver com não querer que a pessoa se ferre. Eu quis que a pessoa se ferrasse muito (ah, sr. madruga, estavas certo!). Mas, em oração, abri mão do direito de desejar isso e orei para o bem-estar dela. Também acho que perdão nem sempre traz reconciliação entre as partes machucadas (apesar de esses temas estarem ligados no NT), mas abre o coração de ambas para reconciliação com Deus, e Deus, que é Deus, faz essa reconciliação entre as partes machucadas quando Ele achar oportuno – se Ele achar oportuno. Bom, sei que na fé cristã entender, definir ou explicar o que é perdão não é normativo, mas perdoar é, e isso tem a ver com uma disposição da vontade (do coração), e não uma postura do entendimento (da mente). Enfim, como puderam perceber, cristãos nem sempre vão saber dizer exatamente o que ou como é perdoar, mas eles vão saber fazê-lo muito bem, e isso basta – e se não conseguirem, cuidado, talvez sejam apenas joio.  

Guilherme Adriano

Invejo este cristão: 

27 de jul de 2015

Pensamentos: Jó

Com o livro de Jó, aprendi que o que consola é Deus responder, e não Deus responder. Jó foi apaziguado com a presença e não com a resposta. Conforme amadureço em fé e minhas dúvidas crescem, diminui em mim a necessidade de uma resposta para elas, pois a certeza da aceitação de Deus faz minha dúvida deixar de me assombrar e, ao invés, me motivar a crescer em mais conhecimento e humildade. Deus não respondeu às dúvidas de Jó, mas Deus respondeu a Jó, e isso o curou. 

Guilherme Adriano

21 de jul de 2015

Deus e a gramática

Em João, está escrito que No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (João 1:1-3)

Deus é um verbo, pensemos: é o verbo que dá vida a uma oração. É através de verbos que uma história ganha sentido. É pela mediação do verbo que outros termos se relacionam. É da natureza do verbo ser infinitivo, participativo e indicativo. É da natureza do verbo conjugar-se e conjugar-se novamente de modo a fazer uma oração inteligível. É o verbo que, buscando concordâncias, faz todo o trabalho duro. É quando sujeito e verbo discordam que há erro gramatical. É prerrogativa do verbo salvar uma oração, mas também é responsabilidade do sujeito saber conjugar. Deus disse ser o verbo TO BE (Êxodo 3:14): único capaz de conectar o sujeito a seu predicado. Deus sabe conjugar-se em toda sorte de tempo verbal, nós que somos ruins em gramática.

18 de jul de 2015

Minha casa, minha vida

Isso aqui é o relato da minha vida com o Papai, Ábba (אבא), então contenha o seu Toddynho e não venha encher o saco nos comentários, pois esse texto não é para discussão, é para minha família (de fé e de sangue, #cristãosentenderão) e para mim. Olha, traduzir experiências, de oração e vivência, em palavras é tão fácil quanto fazer um filme do Homem Aranha que agrade a todos: fóda[1]!

Acho que, depois desse texto, se você for ateu, vai me achar um idiota. Se for cristão, vai me achar chato. Se for de outra marca religiosa, vai me achar cabeça pequena. Se me conhecer, vai entender que escrevo para outros me acharem um idiota, chato e de cabeça pequena.  

Há muito tempo, numa galáxia muito muito distante (Timbó, na casa do Thomi) estava com amigos conversando de espiritualidade (surprise, surprise!) e bobiças que uns acham ser Ábba quando uma menina me retrucou por ser muito teórico. Aquilo que disse foi direto no meu coração como um “hey, menos teoria, mais espiritualidade!”. Hoje, conversando com a mulher no carro, aconteceu a mesma coisa (não pela boca dela, mas...enfim). Essa reputação sempre me perseguiu. Que bom. Gosto de ouvir isso, todo professor sabe que quanto mais letrado se é, mais complicado é de se enganar. Acredita que já me encheram o saco por ter lido a Bíblia toda mais de uma vez? Pois é, fiquei pasmo também. Acho que o mí.ni.mo que alguém que abre a boca para falar de Ábba deve fazer é ler os relatos d’Ele e de Seu Filho (יֵשׁוּעַ) no novo testamento.

Mas essa leitura toda (a da Bíblia, wow, so read, much words, very bible!) me ajudou a distinguir entre experiência com Deus, com espíritos, com a natureza, com a arte, com os outros e comigo mesmo (são as categorias fenomenológicas que uso para me avaliar). Um neófito (termo robusto e chique da teologia para dizer noob) pode interpretar as cinco como sendo apenas uma. Já vi muita igreja pentecostal dar aos fieis experiências lindas com outros fieis, e eles acharam que foi com Ábba. Andei com muito maluco-beleza que acha que fala com Ele, mas fala consigo mesmo nas suas viagens. Conheci espiritualistas que se acham o Serginho Grosman do mundo espiritual, mas que de fato batiam altos papos com uns espíritos de procedência duvidosa. Conheci (I have known, é Present Perfect aqui!) cristãos demais que, em retiros, experimentaram a beleza da natureza e da arte e confundiram seus encantos com experiências espirituais com o Criador. Eu mesmo já passei e passo por todas essas etnias de traquejos ainda.

Sim, já me comovi em cultos e achei que era Deus. Sim, já fiquei doido e achei que era Deus ... e também o diabo. Sim, já entrei em transe contemplativo e dialoguei com minha psique a ponto de achar que era o Espírito Santo. Sim, já me encontrei com espíritos (mas foi fácil ver que não era Deus, eles ficam meio bravos com a ortodoxia de Jesus). E sim, já tive experiências profundas e legitimamente espirituais com o Criador, meu Papai, Ábba.  

Mas esse tipo de coisa não se sai por aí contando para todo mundo e se gabando de ter conseguido o que Morrison não conseguiu, que foi break on through to the other side. Quem faz isso é quem quer fama de superespiritual, e não vai ser eu o infeliciano que vai ficar apontando nomes, porque macedo ou mais tarde, a máscara cai.

O que posso dizer de certeza de experiências legítimas e espirituais com Papai é que a marca de sua legitimidade é o fato de não serem apenas ou completamente espirituais. Não precisamos fugir do mundo para encontrar Deus. Ele transcende nossa realidade, mas não é ausente dela. Esse é o erro em que caem os que buscam Deus apenas no númeno ou no fenómeno, no mundo platônico ou no aristotélico, no espiritual ou no material. O que aprendi lendo e observando a vida dos grandes (que foram os que sabiam que eram pequenos) é que a vida espiritual começa, se instala e se torna parte da vida física, transformando o coração contatado em um coração mais parecido com o de Jesus (o da Bíblia, não o da sua opinião).  

Consigo afirmar vinda de Ábba a transcendência que resulta em caráter e coração bom (bons frutos). Já ouvi e conversei com cada um que deu dor de estômago, pois enquanto falavam de luz, pureza e amor se rodeavam de sujeira, vícios e arrogância. Fica meio difícil acreditar em pureza pregada com hálito de vodca, sabe. Certamente as experiências daquele guru a que me refiro foram legitimamente espirituais, mas não de Ábba. Yeshua avisou que nem tudo que brilha é ouro. Ele bem disse que haveria espiritualidade intensa no mundo, mas nem toda seria de Adonai. A experiência espiritual com Adonai é como a experiência que temos com o sabonete: limpa e todo mundo percebe.

Também aprendi que Deus veio até nós precisamente porque nunca chegaríamos até Ele. Quer tentar, tente. Quer tomar, fumar e usar o que quer que seja para contatar o outro lado, vá fundo. Boa sorte. Você vai chegar a algum lugar, aposte nisso. Você vai conversar com um monte de seres, aposte nisso também. Mas Ábba não estará entre eles. Papai, porque é amor, ensinou um jeito mais fácil. Ele disse assim, “dê meia volta e vem falar comigo em oração.” LoL. A parábola do filho pródigo conta a história de um filho que conseguiu reconectar-se com o pai. Como fez isso? Dando meia volta, no coração e no caminho, e voltando. A transcendência começa ali! Sem meia volta, no coração e no caminho, não importa a velocidade, intensidade ou sinceridade da caminhada, ela acaba no lado em que Ábba não está.

Outro ponto importante é o tipo de experiência que se busca. Acho que todo mundo com que conversei quis uma experiência, um evento, um momento com Deus. Mas conto em duas mãos os que conheci e O quiseram em suas vidas o tempo todo. A diferença é grande entre esse tipo de gente. O primeiro quer Deus por uma noite, o segundo quer Deus em casamento. O primeiro quer experimentar Deus pelo mesmo motivo que experimenta montanhas russas, adrenalina. O outro quer experimentar Deus pelo mesmo motivo que experimenta sapatos, encaixar-se a ele. Todo mundo quer um evento com Deus, é empolgante e dá muita história para contar e do que se gabar. Mas poucos querem Deus em seus momentos de tentação, tristeza e erro. Uma experiência constante e legitimamente espiritual com Ele é, na minha experiência, aquela que começa e é guiada por um coração que busca se moldar ao do Papai, e não moldar o do Papai a si.

Dica de mestre #56: abandone o dualismo grego (espírito x matéria) e recupere o dualismo hebreu (vontade de Deus x vontade do homem). Essa mudança de paradigma muda tudo. Enquanto tivermos como ponto de partida da transcendência o transcender em si, continuaremos nos relacionando com coisas espirituais como ocultistas e xamãs tentando contatar o além. Veja a diferença: o cristianismo helenizado diz que há coisas santas e coisas profanas, lugares santos e lugares profanos, gente santa e gente profana. Conclusão, use, frequente e conviva com gente e coisas santas. Essa paranoia cria uma doença que conhecemos muito bem: coisas do mundo (rock, discoteca, homossexuais e cerveja) e coisas de Deus (louvor, igreja, crentes e suco de uva). O cristianismo hebreu (engraçado usar esses termos, gostei) ensina que há apenas coisas e duas maneiras de se relacionar com elas, uma boa e virtuosa e outra ruim e viciante. Na primeira visão, o mundo, do qual não devemos fazer nem tomar parte, é um substantivo (coisa), na segunda, o mundo é um advérbio (maneira de usar coisas). Na visão doente do cristianismo, você deve evitar certas coisas, lugares e pessoas por serem contaminadas e, se devotando ao asceticismo e oração, você transcenderá ao mundo espiritual. Na visão original do cristianismo, você deve evitar jeitos de se relacionar com pessoas e coisas e, reaprendendo o que é viver sem “ser dominado por nada enquanto tudo lhe é permitido”, transcenderá a carne (vontade humana) e o mundo espiritual se instala e faz parte da sua vida cotidiana. #parágrafocomplicado@lêdenovo.tambémmeperdi.br

Transcender não é sair daqui e chegar lá. Transcender é mudar o coração, daí o lá vem aqui (o reino de Deus vem a nós). Transcender é finalmente se tornar totalmente humano e reconectado a Deus. Na visão grega, a gente deixa a carne (o corpo), nossa a prisão, e chega à realidade última, espiritual através do conhecimento e prática da virtude. Na visão hebreia, a gente deixa a carne (a vontade humana rebelde), nossa maldição, e a realidade última, espiritual vem a nós através da fé e prática do amor. Isso quer dizer que para experimentar Deus e se relacionar com o mundo espiritual de uma maneira mística, devemos começar com mudança de coração e fé. Diria assim, que o portal ao outro mundo está em nossos corações: reajuste-o às coordenadas de Deus e ele abre passagem.  

Em minha caminhada, tive altos e baixos, momentos mais e menos espirituais, mas toda ela tem sido uma experiência com Papai. Desde meus 18 venho mudando, crescendo e me relacionando com Ele. Houve momentos em que tive experiências comigo mesmo (me descobrindo como ser humano), momentos de inspiração pela arte e pela natureza (que arrancaram de mim sentimentos lindos), de diálogo com seres (que não quero mais ter!) e de transcendência (que só consigo descrever em termos culinários).

Não dá para provar nada do que vivi e vi, esse tipo de coisa é mais profundo que os simples mecanismos da ciência. Não consigo expressar em termos teológicos, a experiência cristã não cabe neles nem pode ser sistematizada. Não posso converter ninguém de outra religião com meu discurso, porque não é meu discurso, mas minha vida que prega em quem creio. E a quem me conhece, bom, vocês sabem quem era e quem sou, isso basta.

Guilherme Adriano


[1] Para mim, “fóda” tem acento sim!  

1 de jun de 2015

Pensamentos: Deus vê cara e coração

Na rua, observo homens correndo seus olhos por corpos de mulheres e os imaginando sem roupas. Em virtude disso, imagino Deus correndo Seus olhos pelo corpo de tais homens e os imaginando sem seus corpos. 

Guilherme Adriano

13 de mai de 2015

Pai, feliz dia das mães!

Deus, o Pai, ama, como mãe, seus filhos que, como irmãos e irmãs, se preparam, como Noiva, para seu encontro com Seu Filho, nosso melhor amigo, Senhor e Salvador.


Lembrar que Deus nos ama mais que minha mãe me ama é muito confortante, pois se minha mãe, que é imperfeita, pode me amar tanto e me querer tão bem, quanto mais Deus, que é perfeito em amor – medo de inferno, do diabo e do pecado desaparece. Nesse dia das mães (que passou), parabenizo(-ei) a Deus por ser a maior e mais amorosa mãe de todas. Não, Ele não é só Pai, Ele é mãe também. Isso não é heresia, é apenas a trindade – e os cristãos esquecem que é de Deus que vem a maternidade e que é em Cristo que uma mulher encontra sua verdadeira feminilidade, e não porque Deus é andrógena, mas porque o Pai é Deus, o Espírito é Deus e o Filho é Deus, e ali é que cada gênero e idade encontra sua verdadeira identidade, penso. 

Guilherme Adriano


29 de abr de 2015

Introdução do meu próximo livro, Quando Deus Chorou

[Se tudo der certo, o livro sai ano que vem, se não der, sai quando eu quiser. Vou postando partes dele que termino aqui. Por agora, a introdução]

"O homem já teve a verdadeira felicidade, da qual agora resta nele apenas o sinal e o espaço vazio, que ele tenta em vão preencher com as coisas ao seu redor, procurando em coisas ausentes a ajuda que não obtém nas coisas presentes. Essas porém, são todas incapazes, porque o abismo infinito pode ser preenchido somente por um objeto infinito e imutável , ou seja, apenas pelo próprio Deus.” – Blaise Pascal

“Jesus chorou”, o versículo mais curto da Bíblia. E bem por ser o mais curto creio ser um dos mais profundos, e é desse versículo que tiro o que escrevo. Acho irônico começar um livro a respeito da felicidade humana com essa frase. Mas, com Jesus, as coisas geralmente são irônicas e paradoxais: os fracos são os fortes, os últimos são os primeiros, os ricos são os pobres, quem perde a vida a encontra, quem volta a ser como criança é verdadeiro adulto; a Vida encarna e vem para morrer, Deus se torna homem, o Bom Pastor também é o Cordeiro (que também é o Leão!), enfim, não é novidade para o cristão conviver com paradoxos, tensões e ironias, tanto na cabeça quanto no coração. E que ironia maior haveria se não a de dizer que uma vida vivida à la Jesus é uma vida bem vivida e feliz? Jesus, o homem que ensinou as bem-aventuranças, foi traído, negado e cravado a um pedaço de madeira para agonizar, e ele ensinou o que é ser feliz! Jesus, o homem de quem nós cristãos falamos ser o único caminho à verdadeira paz e felicidade com Deus e cujo exemplo é normativo foi “desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores [...]; [alguém] de quem os homens escondiam o rosto”, “foi oprimido e afligido”  e perseguido.  O homem que de angústia suou sangue  é o homem cujo exemplo dizemos ser o único verdadeiramente capaz de levar à felicidade com Deus e paz interna. Parece piada, mas é só o cristianismo mais puro e simples.
Ao ensinar como é o caráter de alguém feliz, Jesus descreve uma pessoa sofredora; que é feliz porque chora, porque que é pobre de espírito, mansa, inquieta pela injustiça que observa ao seu redor, que engole sapos para dar espaço à paz, que sabe dizer não para seu coração e que é perseguida e incomodada por ter compromisso com a verdade.   Essas, conhecidas como bem-aventuranças, são algumas das verdades cristãs mais fundamentais, e certamente não fazem parte dos 12 passos, 10 leis e 40 dias sugeridos por tantos manuais de autoajuda e realização pessoal, pois como Paulo escreve, a sabedoria desse mundo é loucura para Deus.  O que muitos dizem ser receita para felicidade, Cristo chama de escravidão. A felicidade que Jesus ensinou não começa, não passa nem termina no mesmo lugar em que o mundo ensina. Infelizmente, muitas de nossas igrejas deixam de lado o exemplo e dizeres de Jesus e adotam caminhos alternativos quando se trata de satisfação pessoal e felicidade, importando para púlpitos psicologias, filosofias e modismos mais “alegres” – afinal, quem é que quer carregar cruz, chorar, negar a si mesmo e amar seu inimigo quando está tentando ser feliz? 
Para nós cristãos, falar de felicidade também é falar de sofrimento. Não estou sugerindo nenhum tipo de estoicismo, asceticismo ou conformismo nem sendo masoquista, mas sugerindo que o que o mundo prega ser incompatível e contraditório, Cristo pregou ser complementar. Bom, entraremos em mais detalhes depois, por enquanto, concordemos que Jesus chorou, e é só chorando como Ele que nos alegraremos como desejamos e seremos felizes. 

...[continua]...

6 de abr de 2015

Deus e as artes

O que ensino há 12 anos como professor (que as artes auxiliam na aquisição e aprendizado de uma língua estrangeira ), também digo como aspirante a teólogo, que as artes auxiliam na compreensão da teologia e relacionamento com Deus. O fato é que depois da experiência cristã, nenhum filme, livro ou música é apenas um filme, livro ou música (Sim, Orígenes vive!) 

Ontem mesmo, assisti ao filme Interestelar, e por causa dele, minha noiva teve de me aguentar por uns 20 minutos falando no carro dos paralelos entre o filme, a Bíblia e a metafísica cristã na soteriologia (e bem-aventurado é o varão que, como eu, encontra uma varoa que se diverte com tais assuntos!) 

Filmes de ficção científica, livros de fantasia e músicas ajudam a criar o imaginário teológico. Em outras palavras, fica mais fácil tentar entender o relacionamento de Deus, na eternidade, com nós, no tempoespaço, depois de se assistir a filmes como Interestelar, A Origem, Looper, De Volta Para o Futuro, etc. 

Com tristeza, digo que muitos irmãos se limitam ao Grego Koinê e Hebraico do novo testamento para tentar imaginar conceitos de eternidade, e não é de se supreender que, com tão pobre imaginação limitada à gramática de línguas extintas, acabam inventando teorias tão filosófica, teológica e cientificamente pobres como determinismos calvinistas e limitações do teísmo aberto. Quem não exercita a imaginação com a fantasia (que é a realidade em outras roupagens!), com a ficção científica (que é a matemática e a física traduzidas em realidade!), com a música (que é a linguagem dos sentimentos transformada em melodia!), adota para si doutrinas tão pobres, tão pobres, mas tão pobres que não sobrevivem à primeira conversa com alguém acostumado a jogar Magic.   

Apenas para citar um exmplo, C.S. Lewis colocou na boca de Aslan, em O Pergrino da Alvorada, que "você deve me conhecer por outro nome em seu mundo". Em As Crônicas de Nárnia, o leitor aprende a imaginar um leão carinhoso, sábio e perigoso. Associando a postura, ferocidade e imponência do leão à sabedoria, gentiliza, carinho e lealdade de um sábio e o amor incondicional do amigo que dá a vida pelo outro à imagem do Salvador, Jesus. Fica mais profundo o entendimento de que Jesus é o Leão de Judá, o Cordeiro de Deus, o Grande Conselheiro e o Deus forte depois de ler e assistir a Aslan interagir com Lucy e seus irmãos. A criança que, lendo Nárnia, se apega a Aslan e seu carisma, não vê grandes dificuldades de quando mais velha projetar uma personalidade semelhante no Jesus a respeito de quem lê no novo testamento e que aprende ter sido a fonte de inspiração para seu Aslan. Os sentimentos de gosto e carinho já estão na criança, agora basta aplicá-los a Deus.

Leiam. Leiam bastante, mas não filosofia nem teologia, leiam fantasia. E depois de anos lendo e agora com um imaginário rico e exercitado, dedique-se à leitura da teologia e filosofia. Pois é muito fácil cair em armadilhas doutrinárias (como eu caí!) de pensar que o primeiro sistema coerente e coeso é a mais pura representação da metafísica do Evangelho. O faz de conta vai ajudar a compreender a realidade.

Assistam. Assistam a muitos filmes, mas não quaisquer tons de cinza e jogos mortais, mas a filmes com enredos, personagens e tramas complexos. Filmes que explorem o psicológico dos personagens e seus relacionamentos, que distorçam a espaçotemporalidade, que saiam da realidade cronológica em que vivemos. Assistam a filmes que façam cachorros, vacas, insetos e robôs filosofar como Sócrates e seres humanos se comportarem como computadores com vírus. A trama da telona vai ajudar a lidar com a trama da carne e do osso.

Ouça música. Ouça muita música, mas música de qualidade, não qualquer arroxa ou 'omg, look at her butt'. Ouça música que lhe eleve os sentimentos, que lhe leve para outros mundos, que lhe deturpe a percepção de tempo, que lhe levante os cabelos dos braços e faça palpitar ou lacrimejar. Ouça música que lhe alegre e que lhe entristeça (sim, é importante saber se entristecer sem se deprimir na fé cristã!). Música com compassos polirítmicos, em diferentes contagens de tempo, de diferentes estilos, com poesia, sem poesia, instrumental, a capella e tantas outras ainda. Os entendimentos que vêm dos sentimentos proporcionados por diferentes melodias vão ajudar a entender o que se deve sentir com respeito a Deus, os outros e o mundo. 

A música clássica e o jazz me ensinaram a extrair de meu coração os sentimentos mais serenos, tristes e de simplicidade, que então ofereci a Deus "como sacrifício vivo e agradável". A música me ajudou a dar a Deus meus sentimentos mais bonitos. 

A leitura me ajudou a entender a Bíblia: As Crônicas de Nárnia me levaram a entender a personalidade de Jesus, o psicológico da tentação e a simplicidade da fé de criança que devemos ter. O Senhor dos Anéis me mostrou o peso do pecado na peito daquele que o carregou e seu efeito escravizador e desumanificante. Este Mundo Tenebroso, A Batalha Final e Cartas de um Diabo a seu Aprendiz me ajudaram a compreener o pensar e estratégias do inimigo. O Homem que Era Quinta Feira pintou a perfeita imagem do cético e suas contradições. E tantos outros. 

Interestelar, Homens de Preto III, De Volta para o Futuro, Looper, A Origem, Efeito Borboleta e Lego, o Filme são alguns daqueles filmes que abriram meus olhos à complexidade que é lidar com um ser eterno que se relaciona com seres temporais (adeus especulações soteriológicas de séculos précientíficos!). O Preço Do Amanhã, Ela, Eles Vivem, O Show de Truman e O Clube da Luta me ajudaram a pensar meu relacionamento com a sociedade, tecnologia, bens de consumo e escolhas. 

Depois de anos montando Lego, imaginando mundos, assistindo a tramas e ouvindo e criando melodias, volto ao Evangelho mais confiante no amor de Deus e menos confiante em esquemas doutrinários (Sócrates + Salomão + Paulo = meu paradigma de interpretação da realidade: quanto mais estudo, mais aprendo que não sei, assim, basta-me continuar descobrindo minha pequenez e confiar em Deus que tudo entende. Escrevi sobre isso em mais detalhes aqui, na página 7)

Como professor e teólogo aspirante digo isto: Leiam! Assitam! Ouçam! 

Guilherme Adriano

16 de jan de 2015

O herege ortodoxo

A verdade é revelada pelo Pai, conhecida no Filho e vivida através do Espírito. A verdade torna-se possível com o Pai, alcançável com o Filho e praticável com o Espírito. Se isolarmos Deus de sua unidade tripla, sobra-nos filosofia e religião apenas: Crer no Pai todo deísta faz. Admirar o Filho todo religioso faz. Contatar o Espírito todo místico tenta. Já amar, submeter-se  e dar ouvidos ao Pai, Filho e Espírito, só quem ama Deus de todo coração faz. Ainda não entendo direito - e nunca vou - esse papo de trindade, mas vejo o quão incrível é sua movimentação ao longo dos textos bíblicos! Eles é Ele e Ele é Eles (?)

Apesar de já ter namorado um monoteísmo unicista, não consigo fugir do fato de que Jesus falou do Pai e do Espírito como pessoas separadas e de que os três são chamados de Deus no Novo Testamento. Três seres distintos que são chamados de Deus e afirmando que há somente um Deus (?). Não entendo, mas confio. Não preciso entender, preciso amar. Se conseguisse entender certamente não seria Deus. Se Deus pedisse de nós um entendimento teológico das distinções trinitárias e sua dinâmica, certamente ninguém se salvaria. Nem sequer acredito que acreditar na doutrina da trindade seja necessário à salvação - sei, ando em campos perigosos aos olhos dos ortodoxos, ui, mêda!

 Se entender, concordar e professar a trindade como formulada pelos credos fosse necessário à salvação, não seria mais por fé, mas por intelecto que a salvação seria alcançada. Fé não entende, confia. Muitos confiam e amam a Deus sem entendê-lo, muitos que recusam a trindade aliás. Estão salvos, não há dúvidas. Não consigo imaginar Deus barrando minha avó aos portões do céu e pedindo, "Então, Luzia, minha natureza é tripla ou única?", "única!", responde ela, e então Deus com pesar de coração diz, "Hmmm...desculpa, inferno para você, é tripla e única ao mesmo tempo! Você não acreditou da maneira certa; você teve fé, mas não fé ortodoxa." 

Pouco me importo o que dizem os ortodoxos a respeito de quem está salvo e quem está perdido; pouco me importo o que dizem sobre meu liberalismo teológico e minha tolerância à heresia. O que importa é o que as Escrituras dizem a meu respeito, e com elas estou seguro. Eles, os ortodoxos - ou pelo menos os que assim se acham -, são os mais hereges quando matam, excomungam, maltratam e menosprezam em nome da ortodoxia cristã - você consegue imaginar quão legalista e coitado é o cristão que crê que Deus só salva quem tem as opiniões e ideias certas a Seu respeito? Hoje entendo que é por isso que são tão chatos tentando enfiar doutrina goela a baixo para que concordemos com suas opiniões, eles acreditam que só concordando com suas determinadas visões teológicas e filosóficas é que podemos ser salvos. 

Eles creem, na prática, que Deus é um professor de seminário que só admite no céu quem passa em Seu vestibular divino e soteriológico. 

A natureza e dinâmica de Deus como revelada na Bíblia é um mistério e um assunto muito rico e profundo. Graças a Deus que entendê-lo não é pré-requisito à salvação. Irmãos trinitários, amem os unicistas e não trinitários, muitos deles são de fato irmãozinhos amados do Pai e terão sua herança conosco no céu.

Com respeito ao entender Deus, somos todos hereges, queridos, todos. À teologia, sejamos mais meninos especulando e brincando de catalogar. Ao caráter e amor, sejamos homens que dão a vida pelo Senhor e pelos irmãos. 

Amém

Guilherme Adriano