Como conhecer a Deus


Um colega me perguntou o que fazer para conhecer Deus profundamente. Que pergunta interessante e complicada de responder. Mas acho que a resposta mais curta seria outra pergunta: Como conhecer seu vizinho? Ora, conhecendo-o! Tirando seu tempo para falar com ele e aprender coisas dele! Acho que com Deus é a mesma coisa: há a Bíblia, a oração e os irmãos. Se não conhecemos o que está escrito, para quem oramos? Se conhecemos e não oramos, como nos relacionamos? O ensino de Jesus é que Deus está disponível e ao nosso alcance, e a fé cristã dá grande ênfase ao encontro pessoal com o Espírito de Deus. Como se faz isso é um assunto que vai longe. Aqui está a minha tentativa de responder. 

Dividi o texto em 4 partes, (1)   Introdução ao assunto. (2)   Através de Jesus.  (3)   Problema do mal no homem. (4)   Sentimentos traduzidos em arte.

(1) Introdução ao assunto. Achei esse pergunta genial; difícil de saber por onde se começar a resposta e sem previsão de terminá-la. Encontro-me agora sentado à mesa da biblioteca da universidade onde estudo (Furb) com frio, pé muito machucado – por há uns dias ter tropeçado em meu ventilador ao ser desesperado e correr meio sonolento à porta para atendê-la – e com alguns livros abertos à minha frente pensando: “uma resposta puramente teológica seria um fardo pesado, tedioso e inacessível ao entendimento do menos erudito, já uma resposta puramente pessoal seria subjetiva demais e faria o leitor refém das minhas experiências pessoais que se imporiam como norma.” Sei disso por já ter sofrido os dois casos. Já tomei as experiências pessoais de outros e suas paixões como norma de vida cristã e também já me perdi em abstrações teológicas que me alienaram da simplicidade praticidade do Evangelho. Devo sempre cuidar – e você também, leitor! – e saber dosar conhecimento e caridade.

Sem caridade, filósofos, pensadores, intelectuais e afins são inúteis. Paulo escreveu: “E ainda que [...] conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, [...] e não tivesse amor, nada seria.”. Para que serve uma mente brilhante que não se comove com a dor alheia? Não é quase essa a definição de sadismo? Para que serve um intelecto apurado quando o coração é duro, indiferente e incapaz de condoer-se? Não é a incapacidade de se compadecer característica em assassinos cruéis?

Inteligência e erudição não são sinais de sabedoria. Deixe-me brevemente diferenciá-las. Inteligência pode ser definida, de acordo com o dicionário, como a “capacidade de aprender facilmente”. Erudição é sinônimo de conhecimento, assim um erudito é alguém que possui amplo conhecimento em várias áreas. Sabedoria é a arte de “saber fazer”. Mas saber fazer o quê? De acordo com Provérbios, saber fazer o que é certo. Segundo os ensinamentos de Jesus, dos apóstolos e de Salomão é possível ser inteligente e não ser sábio. Também é possível ser erudito e não ser sábio. Também é possível ser inteligente e erudito e não ser sábio. Também é possível ser sábio sem ser muito inteligente nem muito erudito. Também é possível ser os três! Conheço pessoas inteligentes e tenho professores eruditos, mas preferiria pedir conselhos sobre a vida a uma senhora velha que conheço do que consultar meus ex-professores de ensino médio. Não vou estender esse assunto, mas gostaria que ficasse claro que há diferença entre ser Sábio, Inteligente e Erudito.  Então, como Paulo escreveu, para nada serve conhecer muito, aprender muito e não saber resolver os problemas básicos da vida.

Em contrapartida, também está escrito em Romanos que não é bom ter zelo sem conhecimento, e em Oséias, que o povo de Deus se destruiu por faltar-lhe o conhecimento – repare que o conhecimento das escrituras gera a sabedoria! Há tantos falsos profetas na cristandade por apenas um motivo: falta de conhecimento, voluntária ou não, das escrituras pela parte do povo. Afinal, como poderiam julgar senão através das escrituras? Sabemos o que é lobo e o que é servo através dos ensinamentos de Jesus, e sendo que esses estão fielmente registrados no Novo Testamento, como poderíamos distingui-los senão pelos Evangelhos?

De acordo com Paulo, é possível ter zelo pelas coisas de Deus sem o entendimento delas (Rom 10:2). Tal zelo produz outro infortúnio: a falsa expectativa. Um indivíduo de fé ingênua e acrítica facilmente se apaixona pelo carisma de alguém que sabe usar bem as palavras e se destrói tentando reproduzir as experiências de fé desse alguém em sua própria vida. Já caí nesse erro. Ao escutar as histórias de vida de irmãos meus, que já há anos caminhavam com o Senhor, pensava que, para ser cristão genuíno, deveria ser como eles e ter as mesmas experiências. Ah, como estava enganado; ah, como tentei reproduzir essas experiências em minha vida, e como me decepcionei – comigo mesmo. Estava olhando para homens e não para Cristo; estive olhando para intimidade de vida com Deus dos outros e esperando que assim fosse comigo enquanto desatento do fato de que cada um é cada um e que cada um recebe de Deus o quanto d’Ele busca. Desapontei-me quando, em alguns anos de fé, não tive o que meus irmãos tiveram numa caminhada de mais de vinte anos. Mas é claro! E como poderia? É o mesmo que um aluno de quarta série querer saber o que um professor de faculdade sabe. Que ingênuo era, claro que tentei em vão. Certas experiências só vêm com a maturidade, e essa só vem com o tempo. Tinha zelo, mas não entendimento. Em meu zelo sem entendimento devo ter machucado muitas pessoas. Em meu zelo sem entendimento tentei impor moralidade à base da força. Não estava errado em minhas opiniões, mas estava errado na abordagem. Espero que as pessoas que um dia machuquei saibam que errei e que estou arrependido; infelizmente não tenho mais contato com elas. Zelo sem entendimento transparece como moralismo para quem não crê, hoje sei.

Com isso tudo sugiro que uma resposta apenas intelectual ou apenas pessoal seria inútil. Vou explorar as duas frentes da resposta: a mais objetiva e a pessoal. Como conhecer a Deus profundamente? Que excelente pergunta! Não é comum ver perguntas assim profundas sendo feitas a rapazes de 24 anos de idade e solteiros, não? Por que não? Primeiro, porque sou novo, não tive experiência de vida suficiente para dar uma resposta profunda. Segundo, sou solteiro. O que um solteiro sabe dos problemas da vida? Sim, sei muitas coisas e já tive muitos problemas e posso aconselhar a respeito de muita coisa, mas vou até certo ponto. Se você acha que a vida é problemática, case-se, daí entenderás que o buraco é mais embaixo – aliás, há na Bíblia uma promessa de que quem se casar “sentirá dores na carne”. Relacionamentos não são pra qualquer um; é coisa de homem! Coisa de mulher com fibra! É bonito, imagino, mas é penoso. Aprendi que o potencial para o bem de algo normalmente é proporcional ao mal que pode causar, ou seja, ou um relacionamento é um pequeno vislumbre do paraíso ou ele é uma amostra do inferno. Não há meio termo, e quando há, deixou de ser relacionamento. Quando as partes se tornam apáticas, indiferentes, acabou o relacionamento e começou o acordo social. (Calma, já já chego ao assunto da pergunta!) 

Vou tentar responder à pergunta porque acho que Deus me capacitou a isso durante meus meros 5-6 anos de caminhada com Ele. Agradeço a Deus por ter me concedido sabedoria – por favor, não estou me gabando, mas gostaria de partilhar como hoje sei o que sei e por que escrevo tanto nesse blog: um dia estava lendo a Bíblia e não entendendo nada. Irritado, ajoelhei-me e orei, “Senhor, não entendo o que está escrito, me ajude!”, levantei-me e continuei a ler, Mateus se não me engano. Continuei sem entender uma vírgula. Então, muito irritado, levantei-me e dei um soco na parede de casa tão forte que a parede tremeu e esbravejei “Deus, que m*rda, não entendo!! Quero entender!!”. Fechei os olhos e disse, “ Perdoe-me; ajude-me a entender todas as tuas coisas; dá-me a graça de entender a tua palavra e as tuas coisas; ensina-me a pensar profundamente!”. Está escrito, em Tiago, que, “se a alguém faltar sabedoria, peça-a a Deus e ser-lhe-á concedida”. Eu pedi. E como pedi! Infelizmente poucos pedem coisas assim hoje. Muitos querem bênçãos materiais, milagres, ajuda do alto para passar em provas (o que chamo de cola divina), mas poucos querem sabedoria (a arte de saber fazer o que é certo!).  Hoje vejo que Deus respondeu minha oração. Não sou um grande pensador, mas entendo o suficiente, e só Deus sabe a profundidade das conversas que tive com amigos; só Deus sabe. Hoje afirmo categoricamente que não há prazer maior que uma conversa profunda. Nem o sexo. Isso mesmo, nem o sexo. Pelo menos para mim. Durante uma conversa profunda, mentes cospem seus desgostos e ilusões, olhos choram decepções, risadas trocam experiências, argumentos constroem ideias e a troca de sofrimentos constrói amizades que duram para sempre. Sexo é bom. Eu sei. Mas dura pouco. Uma conversa pode durar o quanto o conversador aguentar! Ah, que prazeroso é conversar. Mas falo de conversar, e não fazer de conta que é inteligente ao citar trocentos autores para, por vaidade, parecer erudito. Se você não gastou mais de três horas conversando com alguém sobre a vida, você nunca conversou! Com uma das pessoas mais amadas que conheço já conversei, uns anos atrás, por mais de seis horas: começamos à noite e vimos o sol subir! Não conheço muitas pessoas que saibam conversar. Aliás, conto em uma mão as pessoas com quem posso conversar seriamente por mais de dez minutos. Já conversei por horas e horas com mendigos (experiência que todo cristão deveria ter!), com amigos, com pastores, teólogos, enfim, muita gente, e sugiro que se você não tem essa prática, ore, peça-a e vá fundo, a experiência de vida que se absorve dessas ocasiões é incomparável.

Com isso tudo dito, acho que sou capaz de me arriscar a responder à pergunta de “como conhecer Deus profundamente” mesmo sabendo de minhas limitações e desvantagens, e até às vezes, falta de conhecimento profundo de Deus.

(2) Através de Jesus. O primeiro e mais importante ponto é Cristo. Jesus disse que “ninguém chegaria ao Pai senão por Ele”, e que “conhecer e ver Ele era conhecer e ver o Pai”, porque tudo que podia se saber de Deus estava manifesto em Jesus. Quando os discípulos pediram “mostra-nos o Pai!”, Jesus respondeu, “Vocês andam tanto tempo comigo e ainda não o viram?”. Jesus foi extremamente exclusivista ao dizer que não poderia haver relacionamento com Deus senão por Ele. Quem deseja conhecer Deus deve conhecer Jesus, Seu Filho, pois no Filho o Pai habita e o Filho no Pai, assim está escrito. Diferente das outras religiões, que são um tipo de escada para chegar a Deus, em Jesus, Deus desce a nós! Em outras religiões você segue regras e rituais para chegar perto de Deus, em Jesus, Ele desce a nós e diz “deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus...e quem não for como uma delas não pode entrar no reino dos céus”. Jesus também contou a parábola do pastor que abandona todas suas ovelhas para ir atrás daquela que se perdeu, e outra de um filho rebelde cujo pai, após ter sofrido a perda desse filho que o abandonara, vigia noite e dia na expectativa de sua volta. Jesus é esse Deus que deixou sua glória e veio em busca dos homens. Ele é esse Pai que fica na expectativa do retorno de seus filhos rebeldes.

Quem quiser conhecer a Deus profundamente, que conheça Jesus.    

(3) Problema do mal no homem. Filósofo e matemático francês, Pascal argumentou que conhecer Deus sem se conhecer gera arrogância religiosa, e conhecer a si mesmo sem conhecer Deus causa desespero, mas conhecer Deus e a si mesmo gera esperança e alegria. Um dos grandes obstáculos à fé genuína hoje é a presunção. Desde o iluminismo o homem vem pensando demais de si mesmo. Em Pensamentos, Pascal argumenta sobre as grandezas e misérias da natureza humana e como, infelizmente, tendemos ao extremo de pensarmos ou somente em nossas grandezas ou somente em nossas misérias. Mas, se ao reconhecermos nossas misérias formos de encontro a Deus, podemos exercitar nossas grandezas sem nos vangloriarmos demasiadamente e assim sofrer nossa maior miséria: orgulho. Eis o primeiro obstáculo ao conhecimento de Deus: a falta de conhecimento de nosso próprio pecado. Da mesma maneira que nunca saberíamos o que realmente é o doce sem antes ter provado o amargo, assim também nunca saberemos quem é Deus sem antes saber quem somos.

Jesus ensinou que é impossível chegar a Deus sem arrepender-se. Arrependimento só é possível quando percebemos o que fizemos, e só entendemos o que fizemos quando Deus nos diz; quando Ele nos mostra uma foto – sem photoshop – de quem realmente somos, e isso ocorre quando humildemente passamos a coroa e cedemos o trono de nossas vidas para Jesus e confessamos, como C.S. Lewis relata em sua relutante conversão, que “Deus é Deus”, de espírito dobrado perante o Senhor.

Alguém disse que nós nos presumimos, já Deus nos conhece. Ele sabe do que somos capazes, nós não; nós é que precisamos entender do que somos capazes antes de expressarmos toda essa capacidade! Claro, o homem é capaz de maravilhas, mas na mesma proporção, é capaz de coisas inimaginavelmente terríveis. Não estou falando de Hitlers e Stalins, estou falando de nós. Dadas as circunstâncias, seríamos terríveis. Permita-me dizer a verdade segundo as Escrituras: você, paulista, carioca, catarinense, nordestino, internauta no geral, é um pervertido, perverso, vingativo, presunçoso, orgulhoso, mentiroso, imoral e violento ser humano. Não digo isso por ser melhor, mas por também, por natureza, ser assim. E todas essas maldades escondem-se na forma de sementes em nossos corações. Uma semente quando cai em terra bem alimentada cresce, frutifica e alimenta quem por ela passa. Sendo nossos corações, de acordo com Jesus, cheios de “maldade, violência e prostituições” e as poluições morais do mundo adubo inesgotável, temos ao nosso alcance a possibilidade de nos tornarmos o pior tipo de ser humano, o auto-suficiente; soberano e senhor de si mesmo. A vontade do ser soberano sempre prevalece. Enquanto você for soberano em seu coração, sua vontade será feita custe o que – ou quem – custar.

Jesus disse que quem não for como uma criança não entra no Reino dos céus. Crianças dependem de seus pais. Assim, o cristão depende do Pai. A criança molda sua vontade de acordo com os conselhos e comandos do pai, assim também faz o cristão para com o Pai. 

Sua consciência testifica contra você toda noite antes de pegar no sono, nos momentos de raiva e de solidão. Eu não preciso ir longe tentando demonstrar que você tem maldades indizíveis percorrendo sua mente e escondidas em seu coração. Por acaso gostarias de ter seus pensamentos reproduzidos em alto volume e boa imagem? Eu não. E por um simples motivo: são maus. Sendo que meus pensamentos são meus e fazem parte de quem sou, concluo que deve haver algo de errado em mim.

Jesus disse que precisamos não de uma reforma, mas de transformação; não de melhoramentos, e sim de revolução. Jesus não veio nos ensinar uma vida melhor, Ele nem sequer considerou o que tínhamos como vida, antes acusou-nos de estarmos “mortos em nossos pecados”, “vivendo em trevas”, “perdidos”. Estar perdido é um problema. Estar perdido e no escuro é pior. Mas estar perdido, no escuro e morto, é o cúmulo da desesperança. Como na parábola do filho pródigo, a humanidade se encontra agora gastando as riquezas do Pai nas futilidades da vida. Cabe a cada um tomar a decisão de voltar à casa do Pai enquanto Ele está lá, vigiando, para quando avistar um filho arrependido voltando, sair a seu encontro para abraçá-lo, perdoá-lo, lavá-lo, vesti-lo e festejar seu retorno com um banquete, a saber, o do cordeiro.

“É sem dúvidas um mal ser cheio de defeitos; mas é ainda um mal maior ser cheio deles e não querer reconhecê-los, isso é juntar aos defeitos uma ilusão voluntária”. Nossa condição é ruim. Mas não reconhecer nossa condição é pior ainda, pois adiciona a todos os defeitos a auto-ilusão, disse Pascal. Alguns iluministas disseram que nascemos como uma tabula rasa e é a sociedade que nos desvirtua. Será que alguém os perguntou, então, quem desvirtuou a sociedade? Ora, se a sociedade é quem corrompe o homem, pergunto, “então quem corrompeu a sociedade?”, e a resposta será “o homem!”. O culpado é sempre o homem.

Ah, quantas e quantas vezes escutei ateus culpando Deus em quem não acreditam por cometer crimes terríveis, enquanto não percebem que caem em contradição ao acusarem-no e condenam-se ao negarem-no. Pois veja, se Deus existe, então os homens são culpados por cometerem atrocidades e acusarem-no por ter nos criado livres, e se Deus não existe, somos culpados por cometer atrocidades e jogar a culpa num ser imaginário. Se Ele existe, somos culpados. Se Ele não existe, somos culpados. Somos sempre culpados. Eu e você. Infelizmente não gostamos de admitir tal fato, fere o orgulho. Mas a antropologia da Bíblia é desagradável. É um punhado de areia nos olhos do homem moderno – não estou dizendo que somos completamente perversos, como dizem algumas teologias incoerentes e como foi a figura do homem pintada pelos homens da idade medieval, estou apenas ecoando a voz da Bíblia! Lembro-me da reação de meu amigo quando veio a mim triste dizendo-me, “cara, Deus se arrependeu de ter nos feito, de acordo com Gênesis”; versículo pesado. Valioso ao estudo da natureza humana! Jesus também disse que “é do coração humano que procedem todas as maldades”.

O que diz a Bíblia sobre o homem? (Romanos 3:10, Gálatas 5:19, Mateus 15:18-19, Isaías 65: 2, 64: 6, 59: 2-15. Oseias 4:1. Jeremias 9: 2-6. 10:8.Tito 3:3. 2 Timóteo 3). Os homens caíram. Hoje são maus porque querem fazer maldades. Gostam da maldade. Suas maldades foram tantas e tão perversas que para salvá-los foi necessária a morte de Deus. A cruz, diz Paul Washer, não é um símbolo de quão valioso o homem é, mas sim de quão perverso ele é, pois só a morte do Filho de Deus seria o suficiente para perdoá-lo.

Certa vez G.K. Chesterton foi convidado, junto a vários outros escritores, a escrever um artigo intitulado “o que há de errado com o mundo”, sua resposta foi:

         Caros Senhores,
         Eu.
         Sinceramente, Chesterton.

Cada eu é o problema. Egoísmo! Ego em latim significa eu, enquanto o sufixo -ismo geralmente indica uma categoria, ideologia ou doutrina religiosa. Assim sendo, egoísmo significa a ideologia do eu, ou também religião do eu.  Quando eu é o ponto de partida e chegada, nós deixa de existir e o amor é sacrificado no altar do progresso dando caminho à busca da felicidade pessoal, assim como declara a constituição americana. O problema é que a minha felicidade pessoal talvez seja a miséria de meu vizinho.
  
Jesus, com uma frase, joga por terra toda prepotência dos Gregos e iluministas, acaba com o superman nietzscheano e a visão moderna e pós-moderna do homem afirmando, ao contrário deles, que o homem caiu e é o seu maior problema, ao passo que também eleva o ser humano a mais alta posição nesse universo e o dignifica como sendo “portador da imagem de Deus” e “templo de habitação do Deus altíssimo”.

Ele rebaixa sem humilhar e enobrece sem exaltar. Em Jesus antropologia ganha outra perspectiva.

Aprendi assim, que uma vez perguntaram a Jesus se deveriam ou não pagar impostos a Roma. Jesus pega uma moeda e pede a seus inquisidores, “de quem é a imagem cravada na moeda?”, “de César”, respondem. “Então deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” responde Ele. A conversa termina por ali, mas creio que se tivessem sido mais espertos ainda teriam levado a conversa mais longe perguntado: “Mas mestre, então o que é de Deus?”; creio que Jesus teria respondido perguntando: “E de quem é a imagem cravada em vocês?”.

Como conhecer Deus profundamente? Primeiro reconhecendo que Deus é Deus e nós somos apenas homens. Ele não precisa de nós, mas nos quer, em contrapartida, nós precisamos d’Ele, mas não o queremos. Quem viu a si mesmo sem maquiagem reconhece que Deus é bom e conhece sua misericórdia.

(4) Sentimentos traduzidos em arte. Até um tempo tinha um problema com as artes. Para mim muitas coisas não fazem sentido na arte! Que diabos quis dizer Lindolfo Bell com alguns de seus poemas? Onde está a beleza de certas pinturas surreais? Até que, tomado por uma ardente paixão, escrevi um poema. Depois, afogando-me em tristeza e desespero pelos seres humanos, chorei e escrevi outro. Aí entendi! A arte não é para ser entendida, e sim sentida! Poemas quando lidos sem emoção são ridículos; eles são a grafia dos sentimentos do poeta. Na maioria, não são para se entender, mas para se sentir. Quem não partilha do sentimento do poeta não sente seu poema, logo, não compreende que não há o que compreender! Poesia é o sentimento que nasce no coração do poeta descrevendo sua admiração pelo objeto admirado, seja esse uma pessoa, uma paisagem, etc. O entender que a arte deve ser sentida antes de pensada ajudou-me a conhecer Deus. Já explico como.

Minha família é de artistas. Minha mãe desenha e escreve, minha tia e minha prima desenham muito bem e minha outra tia, e alguns tios-avós, pintam. De algum modo herdei essa veia artística. Houve uma época em que, modéstia à parte, desenhava muito bem – hoje perdi a prática, mas ainda tenho uns traços na manga. Gastava muito tempo na produção de histórias em quadrinho, desenhos surreais e figuras humanas. Desde pequeno tenho o costume de contemplar desenhos, pinturas e paisagens, e hoje entendo que a arte revela os sentimentos do artista. As cores, os traços, as sombras, as expressões, enfim, toda a obra faz transparecer os sentimentos de quem as criou enquanto as criava. Hoje posso perceber em meus desenhos, que guardo com muito cuidado, o que sentia enquanto os desenhava. Tenho desenhos cujos traços são delicados, leves, redondos e apresentam muitos detalhes, e, ao analisá-los, lembro o que sentia. Ah, quanta fantasia se passava em minha mente enquanto desenhava meus seres sobrehumanos; quanto carinho sentia ao desenhar o rosto de amigas queridas; que risadas nostálgicas dou quando olho as caricaturas de professores e amigos que vivia fazendo quando estava entediado em sala de aula ou trabalhando em algum projeto. Hoje entendo que a pintura e o desenho são representações do que o artista está sentindo. Sentimentos bonitos ganham formas e cores na mão do artista.

Por favor, não estou tentando me passar de artista, apenas construindo um argumento que chegará a Deus. Logo trarei tudo isso a uma conclusão.

Também não sou músico, mas me dou razoavelmente bem na musicalidade. Após ter me interessado por música clássica (barroca e romântica especialmente) dediquei-me, e ainda me dedico, à criação de pequenas composições de violão clássico. Nada complexo, mas melódico e com pegada barroca. As emoções de alguém que compõe uma música ficam ainda mais evidentes do que aquelas de quem desenha ou pinta. É mais fácil sentir a música do que a pintura. Tento imaginar o que sentia Beethoven quando compôs Sonata ao Luar, ou Ode to Joy; imagine o desespero que levou Mozart a criar seu Requiem; o que se passava no coração de Chopin para transformar algumas notas musicais em Noturno? Quando cientistas tiveram a ideia de gravar uma mensagem e emiti-la universo afora na esperança de que alguma outra civilização inteligente a captasse, quiseram incluir nela uma música de Bach como prova de que aqui havia vida inteligente. Comentando a ideia, Carl Sagan, astrônomo famoso, disse algo como “Isso seria se gabar!” (That’s just showing off!)

Para mim, e creio que para muitos outros, a música é sentimento traduzido em sons.

Seja na poesia, no desenho, na pintura ou na música, a mente do artista está à mostra através de sua obra; sua vida interna é trazida para fora em representações gráficas, visuais e sonoras.

Com esse entendimento perguntei-me, o que sentia o coração de onde emanou o Amor? O que se passava na mente que deu origem ao universo? O que sentia e o que pensava Deus ao criar a natureza, os animais e o ser humano? Que tipo de imaginação dá origem a uma natureza assim? A profundidade dessas perguntas tão clichês pode apenas ser alcançada quando tais perguntas forem propriamente sentidas! Sentimos o encanto da natureza, da vida e dos sentimentos, então perguntamos – segundo Aristóteles, esse é o sentimento de espanto e admiração que dá origem à filosofia.

Por ser dado às artes posso dizer que os mais bonitos – e às vezes mais tristes – sentimentos são expressos nas artes. Toda arte é uma criação. O cosmos e a vida são criações. Logo, o cosmos e a vida são arte. Por isso posso dizer que a criação fala do coração e do pensar de Deus. “E o que dizer sobre a violência da natureza e os acidentes do mundo, eles também representam a vida interna de Deus?”, imaginei a objeção. Ora, a única culpa que, por exemplo, Leonardo DaVinci teria de um de seus alunos tê-lo afrontado seria a de permiti-lo expressar-se livremente em sua presença. Que culpa teria DaVinci se seu aluno jogasse um balde de tinta em sua Mona Lisa? Deus pintou o quadro perfeito, o homem jogou nele um balde de tinta. Deus criou a natureza, o homem a corrompeu. 

Vou muito a cachoeiras com amigos e sou observador de estrelas, e digo que não há nada mais belo do que uma queda d’água e um céu estrelado. Que lindo é o coração do Deus que criou coisas assim? Só quem é admirador da natureza consegue compartilhar de meus sentimentos ao escrever isso!

Como conhecer Deus profundamente? Observando aquilo que fala do que Deus é. “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”, escreveu Paulo. O cosmos é o quadro que Deus pintou por amor a nós. 

Guilherme Adriano

Comentários

Aline disse…
Nossa, coisas profundas vc escreveu. A cada dia sinto que preciso melhorar meu relacionamento com Deus, e fico tão feliz em procurar e descobrir como... Quero mais da sabedoria de Deus na minha vida, principalmente para ajudar a outros, assim como você! Que Deus continue te abençoando e te capacitando. Agradeço por compartilhar seus pensamentos e das sabedorias divinas vindas à você, hehe. Abraços! Aliine
Por isso mesmo, Jesus disse: quem quiser vir a após mim, a si mesmo se negue. No original significa negar a vida da alma. Além do espírito temos a alma formada pela mente, vontade e emoção, todas devem estar sujeita a vontade do Deus, o que torna tudo difícil mesmo, para Deus nada é impossível como está escrito
Jessica disse…
Pensei em dizer muitas coisas,mas só posso te dizer,obrigada.