O Povo Dentro do Povo

Reforma não é um bom termo para descrever o processo pelo qual a igreja deve passar para se tornar mais parecida com aquela que o Novo Testamento apresenta. Creio que não. Reforma significa restaurar, consertar, melhorar. Reforma-se aquilo que um dia foi belo. Sinceramente, olhando para a história da igreja pós-constantino, não vejo um período no qual ela foi bela ou funcionou sem matar muitos ou apostatar. Parei de lutar contra o sistema quando vi que ele nunca sequer funcionou. Então creio que reforma não seja um bom termo, e sim revolução. Essa ideia de reforma x revolução não é minha, peguei de outro pastor, mas gostaria de desenvolvê-la. 

Veja, a Igreja está na igreja. A igreja não é a Igreja. A Igreja não é um corpo de pessoas que se reúne para adorar a Cristo, mas é um grupo de pessoas que se está misturado a um grupo de pessoas que se reúne para adorar a Cristo. A Igreja está na igreja. Jesus contou que o Reino de Deus “é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora.” (Mateus 13:47-48) 

Nem todo os peixes que foram tirados do mar pela rede foram considerados bons, assim também, creio, nem toda pessoa que é retirada do mundo pela igreja é boa ou serve. Nessa parábola houve duas seleções, uma em grande escala, que traz os peixes para fora do mar e para dentro da rede, e outra em pequena escala, que faz uma separação entre os peixes que estavam na rede. Nem todos os peixes que entraram na rede foram para o cesto. Os peixes ruins foram lançados fora. Em minha opinião, isso significa igreja e Igreja. Muitos saem do mundo e entram na igreja, mas nem todos que estão ali vão para o cesto, alguns serão lançados fora.

Assim, dentro da cristandade há cristãos. Dentro da igreja está a Igreja. O povo de Deus está no meio daqueles que se chamam povo de Deus. Não adianta bater na tecla de se reformar a igreja. Ela nunca funcionou! Como se concerta algo que nunca funcionou? Não busque uma reforma, busque uma revolução daqueles que estão em constante reforma, os cristãos! Deixa a igreja pra lá e se preocupe com a Igreja, isto é, com seu irmão querido que queima por dentro em amor a Cristo e dá bons frutos! Olhe para a história do cristianismo e verás isto: uma minoria sincera e crente perecendo sob o domínio de um monstro hipócrita e violento que crê ser crente.

Creio que o maior ministério do espírito desse mundo, satanás, é o ministério religioso e ético. O diabo, ao contrário do que muitos pensam, não está envolvido apenas com as coisas obviamente demoníacas, ele deve gostar muito de uma boa ética religiosa! Por quê? Porque essa afasta as pessoas da caridade e da devoção a Cristo! O diabo não trabalha apenas com possessões e sacrifícios humanos, ele também trabalha dentro da igreja. Ele certamente tem seus filhos nos púlpitos arrancando dinheiro dos miseráveis; tem seus filhos em palcos tocando músicas que entronizam o ego e entorpecem multidões, tornando-as ineficazes na caridade, viciadas na futilidade e “mais amigas de prazeres do que de Deus”. O diabo, em nome da ética religiosa, incentiva a indiferença para com a miséria: é mais confortável não se sujar com os que se perdem do que ir de encontro a eles em amor. O diabo, em nome da tradição religiosa, patrocina a liturgia morta, que escraviza e atrofia a alma. Lembre-se que Jesus chamou de filhos do diabo os que se professavam filhos de Deus! 

Reformar? Não. Revolucionar? Sim. Revolucionar a igreja? Não! Revolucionar o ser! Em Cristo nascemos de novo, esse novo nascimento é a revolução. O processo de santificação que dali se dá é o que poderíamos chamar de reforma constante do ser. E a igreja? Deixa ela se matar com suas práticas anticristãs, e nós, como cristãos, vamos à igreja acordar a Igreja e trazê-la de volta às ruas, às escolas, às faculdades, às empresas e ao cerne da atividade do Espírito Santo: relacionamentos!

Guilherme Adriano

Comentários

Day disse…
Deixar a igreja se matar é sem dúvidas uma bela opção.

Ótimo texto.
Abraço.
Rogério Sampaio disse…
Nunca vi um texto expressar tão bem o que penso.

Parabéns.