Pensamento: Chamado cristão

Encontrar-se com Deus é encontrar-se com a alegria disse Agostinho. Mas também é verdade o que Schopenhauer disse, que viver é sofrer. Jesus foi o único que conseguiu colocar essas duas verdades lado a lado e vivê-las da maneira correta: se alegrando, por estar com o Pai, e sofrendo, por estar nesse mundo. Somos chamados a ter um encontro com Deus, e portanto com a alegria, mas também a ir de encontro aos homens e contra o mundo, portanto sofrer. Quem só se alegra é imoral, pois não chora pela desgraça, própria e alheia, e quem só sofre não conhece a Deus, que é a alegria. Então será assim: até aquele dia sofreremos e nos alegraremos juntos, como Igreja, e Deus estará sempre em nosso meio chorando e se alegrando. Então ai daquele que não quiser sofrer os fardos desse mundo, e coitado daquele que não se alegra no Senhor.

Comentários

Don disse…
recomendação de leitura:

B. Russel - "Da denotação"
William V. O. Quine - "Sobre o que há"
Flávio disse…
"A dor e o aborrecimento são os dois últimos elementos entre os quais oscila a vida do homem. Os homens exprimiram esta oscilação de modo curioso; depois de haverem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e dores, que deixaram para o céu? Justamente o aborrecimento."

"Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração."

("O Mundo Como Vontade e Como Representação" - Arthur Schopenhauer)

Definitivamente Schopenhauer não é uma boa lembrança em um blog cristão.
Guilherme disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme disse…
"A filosofia cristã é versátil", um filósofo disse. E ela é pelo fato de se preocupar em explorar a verdade revelada plenamente em Cristo. Pascal disse que a razão chega até certo ponto, mas a revelação (Cristo) nos leva onde a razão sozinha não chega.

De acordo com a Bíblia, até uma mula pode proferir verdades. Nem Schopenhaour, nem Nietzche, nem Burtrand Russel (que o dom recomendou, tive a oportunidade de ler umas obras suas), nem muitos outros que vivo citando são boas memórias para um blog cristão, mas a verdade é a verdade, se eu dissesse que os filósofos erraram completamente, estaria mentindo, muitos disseram coisas incríveis, chegaram a conclusões que o próprio Cristo demonstrou.

Gosto muito da sinceridade de Schopenhaour para com a humanidade, a sua visão pessimista da vida é coerente para com sua filosofia humanista. Respeito isso. O apóstolo Paulo ensinou que deveríamos julgar todas as coisas e reter o bem, assim sendo, ao estudá-los, retenho o que é bom.

Em uma de suas obras ele ataca o calvinismo, e por rejeitá-lo, o que também faço, zomba de Deus, como se o calvinismo fosse uma representação fiél de Deus. Venho tomando anotações de obras que leio de ateus, pretendo escrever um livro, claro, depois de me formar em algumas coisas que ainda pretendo, sobre "o deus que os ateus rejeitam". Há muitas similaridades entre suas rejeições e, como Freud disse, muito de suas rejeições foram por traumas passados. Mas isso é outra história, não quero entrar nela aqui...

"Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração." - Exato: "E Jesus chorou" e "pesou o coração de Deus [se arrependeu] por ter criado o homem".

Obrigado pelo comentário
Flávio disse…
Algumas considerações:

“Filosofia cristã”, a meu ver, é um termo totalmente errôneo. A filosofia só é possível em um ambiente de igualdade entre homens onde TODOS os argumentos possam ser medidos, contestados, e assim refutados ou não refutados. Essa refutação provém da análise do argumento por si só, e não de um valor divino ou não deste argumento, ou de quem o tenha proferido ou não. Disso se segue que:

1- O cristão não contesta tudo. Ele sempre parte de uma base de dogmas para alcançar o que ele chama de “verdade”. Qualquer discussão já tem suas premissas definidas, e o crente é psicologicamente afetado em sua capacidade de contestação dos dogmas por uma montanha de ameaças ao “infiel”.

2- Os homens não são todos iguais no cristianismo. Fica claro que alguns foram escolhidos como porta-voz de Deus e outros não. Nesse caso a argumentação é sempre restringida quando se começa a contestar a capacidade intelectual e conceitual do dito “profeta” (seguindo-se a tradicional avalanche de ameaças ao infiel).

A filosofia nasce com a democracia grega. Os hebreus não chegaram nem perto de conhecer algo nesse sentido. Se foi melhor ou pior para gregos ou hebreus eu não sei, mas acho que se deve dar o nome devido aos bois. Doutrina cristã pode ser, mas filosofia cristã eu discordo totalmente. Filosofia pressupõe um caráter não dogmático, aliás, caráter heroicamente defendido por grandes homens como Sócrates, que inclusive morreu por isso.
Flávio disse…
"'E Jesus chorou' e 'pesou o coração de Deus [se arrependeu] por ter criado o homem'."

Jesus e Deus são Um ou não?

Se sim, como pode um ser onisciente e onipotente se arrepender, ou duvidar do valor de sua própria criação?

Se não, o que é Jesus? Humano ou divino? Ele tem acesso direto a Deus ou não?


E se Deus não é onipotente e onsciente (caso em que ele poderia errar e se arrepender) qual é o conceito bíblico de Deus?
Guilherme disse…
Flávio, é sempre bom conversar com você, mas peço que não haja animosidade nas conversas nem deboche. Não estou dizendo com isso que houve, mas é sempre bom lembrar, xD!

Respondi a cada questão separada, é longa a resposta, leia com calma, se quiseres continuar a conversar, por favor, vamos conversar mais por e-mail como fizemos antes: professorguilhermeadriano@hotmail.com

“Filosofia cristã é um termo errôneo”, sim, ao seu ver é, ao meu não, e ao de. C.S. Lewis, G.K. Chesterton, Agostinho, Tomás de Aquino, William Lane Craig, Peter Kreeft, entre outros também não. Há faculdades de filosofia cristã pelo mundo todo, é uma matéria estudada no curso de filosofia; faz parte de seu currículo.

“A filosofia só é possível em um ambiente de igualdade entre homens onde TODOS os argumentos possam ser medidos, contestados, e assim refutados ou não refutados.” – Concordo!

“Essa refutação provém da análise do argumento por si só,” – Concordo! Mas também não podemos esquecer de que não se pode refutar uma argumento sem um contra argumento. Contra argumentos são baseados em pressupostos de verdade contrários aos previamente apresentados. Só se refuta uma argumento quando se acha que ele está errado. Se cremos que algo está errado é porque cremos em outro algo que julgamos certo. Ninguém parte do zero, é impossível fazer isso, todos partimos de alguma coisa que cremos ser verdade.

“e não de um valor divino ou não deste argumento, ou de quem o tenha proferido ou não.” – O peso do argumento não se dá por quem o profere, concordo, mas a sua relevância sim! O argumento pode ser bom ou não independente de quem o proferiu, mas a importância de suas implicações dá-se exclusivamente por causa daquele que o profere! Se um argumento se atribui valor divino ele não se torna mais válido, porém carrega muitas mais consequências, caso esteja certo caso esteja errado. (Aposta de Pascal).

“... Ele sempre parte de uma base de dogmas para alcançar o que ele chama de verdade” – Não podemos culpar o crente por fazer o que todos fazem isso, inclusive eu e você. Aldous Huxley admitiu em seu livro: “Eu tinha razões para querer que o mundo não tivesse um sentido; conseqüentemente, pressupus que não tivesse, e, sem qualquer dificuldade, consegui encontrar motivos satisfatórios para essa pressuposição. O filósofo que não encontra sentido algum no mundo não esta preocupado exclusivamente com uma questão de metafísica pura; Quanto a mim, a filosofia da ausência de sentido foi basicamente um instrumento de libertação, tanto sexual como política". - ALDOUX HUXLEY (Ends and Means - Pg 270)

O ateu ele parte do dogma de que Deus não existe e tenta chegar a esse resultado. O naturalista parte do princípio de que o mundo material é tudo que há. O cético parte do pressuposto da dúvida e no final chega ao resultado que for mais coerente a ele. Todos partem de dogmas. Não existe filosofia que não parta de pressupostos empiricamente não-prováveis. O cristão parte de Cristo, o humanista parte de si mesmo, o espiritualista parte da metafísica, etc. Nesse sentido, somos todos homens de fé, vivendo e apostando, naquele dia, saberemos quem estava certo. Ninguém está livre de certos dogmas. Claro, há crentes e crentes, assim como há ateus e ateus, céticos e céticos.

“Os homens não são todos iguais no cristianismo” – No Budismo tradicional, Gautama relutou para aceitar as mulheres e chegou a dizer que não há salvação para elas. A teologia islâmica rebaixa a mulher à condição objeto e mercadoria. No Hinduísmo há castas. Jesus ensinou que todos estão sob a mesma condição, todos são iguais, todos tem a mesma responsabilidade diante do Pai. Há sim, filhos de Deus e não filhos de Deus. Deus ama Seus filhos e também seus não-filhos, e prova isso entregando Seu Filho por todos antes mesmo que houvesse filhos de Deus e não filhos de Deus; “não há judeu, nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher”, “todos pecaram, todos carecem da glória de Deus”.
Guilherme disse…
“Fica claro que alguns foram escolhidos como porta voz de Deus e outros não” – Sim, mas isso não era privilégio, e sim fardo! Esses que foram porta voz de Deus foram perseguidos, serrados ao meio, decapitados, mortos à espada, apedrejados, arrastados, torturados, crucificados. Essa escolha que Deus fez não foi de amar alguns e odiar outros, e sim de mandar uns dizer que Deus ama a todos.

“Nesse caso a argumentação é sempre restringida quando se começa a contestar a capacidade intelectual e conceitual do dito “profeta” (seguindo-se a tradicional avalanche de ameaças ao infiel).” – [Vamos cuidar com o Argumentum ad hominem] Quem ameaça de infiel é o Islamismo e o Catolicismo Romano que exerce o controle sob a vida do fiel. Lembremos que o Catolicismo Romano é a deturpação do Cristianismo, assim como a fé Bahaí é a deturpação do Islamismo. A inquisição ameaçou, Maomé, em seus ensinos, também. Jesus não. Bem como você pode ver, sempre fui aberto ao debate e à conversa e nunca proferi uma ameaça. Nunca ouvi um debate Ateu X Cristão, e já ouvi inúmeros, onde um desprezava o outro de ser intelectualmente incapaz.

“Doutrina cristã pode ser, mas filosofia cristã eu discordo totalmente” – Como citei antes, você discorda, historiadores e filósofos não. Há um livro chamado “Jesus e a filosofia”, recomendo a leitura. Muito boa. Estudamos filosofia cristã na faculdade e em seminários. Também um livro preparatório de ensino de filosofia para professores, onde lá, diz assim, que a filosofia cristã parte do princípio grego do Logos, e que o que os gregos tinham como logos, os cristãos atribuíram a Cristo! Agostinho era platonista e Aquino aristotélico. Os conceitos de Aristóteles de “motor imóvel”, de Platão das “ideias” e suas definições de “início” são muito parecidas com os atributos do Deus Bíblico.

“Jesus e Deus são Um ou não?” – Sim, Jesus e o Pai são um, Jesus disse “Eu e o Pai somos um”. Não uma pessoa, mas um Deus. O Pai, o Filho e o Espírito não são a mesma pessoa, mas são o mesmo Deus.

“Se não, o que é Jesus? Humano ou divino? Ele tem acesso direto a Deus ou não?” – Perfeitamente humano e perfeitamente divino. Creio que os ensinos de Paulo, João e de filósofos, alguns não cristãos, ajudarão: Jesus é como Deus é como o ser humano devia ser. Ele é o Logos, e o Logos estava com Deus e o Logos era Deus. O Logos se fez carne e habitou entre nós (João) Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Paulo) Ele se esvaziou de sua Glória e desceu em carne (Paulo) Jesus se humilhou perfeitamente. Perfeitamente? Só Deus! Humilhar-se? Só um homem! (C.S. Lewis) Ele é perfeito Deus e perfeito homem. Deus é a relação necessária para que o amor exista e seja eterno, assim Deus ama, é amado e é amor. O que provoca o pensamento sobre Jesus não é o que Ele disse nem o que fez, mas quem disse que era (Jesus e a Filosofia). - Poderia citar inúmeras obras se desejar, boas leituras e boas explicações.


Guilherme disse…
“como pode um ser onisciente e onipotente se arrepender?” – Onisciente e Onipotente não quer dizer “não pode errar”, quer dizer, sabe de tudo e pode tudo. Deus disse que se arrependeu de criar o homem, não no sentido de que errou, mas no sentido de que não valeu a pena, expressado por uma tradução em inglês “regret”, mas que infelizmente, no nosso vocábulo limitado, apenas temos uma palavra para expressar “pesar de coração”, e é “arrepender-se”. Esse arrepender-se poderia ser traduzido com outros sentidos, mas se entrarmos nessa questão, creia-me, ficaremos muito tempo aqui.

O conceito Bíblico de Deus é que Ele não erra. E não errou, mas sua criação sim, pois é dotada de livre arbítrio, e, ao ser seduzido por aquele que errou primeiro, quis errar também, mas Deus quis salvar, daí mandou o Filho, veio o Filho e abriu o caminho de volta para que aqueles que, livremente, quisessem voltar do caminho trilhado pudessem, e ao partir, mandou o Espírito para nos auxiliar. É simples de entender. Agora, as objeções que podem ser levantadas contra o porquê Deus criou sabendo que iríamos pecar, por que não criar seres já capazes de nunca errar, por que não destruir satanás e impedi-lo de nos seduzir, e muitas outras, não sei! Não sei mmeessmmoo, e olha que já tentei saber.

Mas saber ou não, não muda a realidade, e se a realidade é de que Deus existe, então somos estúpidos ao achar que Ele não existe e debochar, mas se Ele não existe, então somos inúteis ao discutir coisas tão impertinentes.

Abraço Flávio!
Flávio disse…
Pra mim Tomás de Aquino e Agostinho são teólogos, o que eles fizeram foi misturar conceitos filosóficos com dogmas religiosos vigentes na sua época na tentativa de justificar uma crença que seria estranha aos gregos. Não tenho interesse nenhum em estudar teologia, infelizmente isso não é uma escolha minha.

Eu realmente acho estranho associar o nome da filosofia a alguma religião. Seja ela qual for. Mas é só minha opinião mesmo, você tem razão.

Outra coisa: É de conhecimento corrente, e Nietzsche já atentava a isso, que o conceito grego de “bem e mal” seria melhor traduzido por “bom e ruim” sendo um juízo técnico e nada tendo a ver com o sentido moral que os religiosos cristãos europeus viram nele mais tarde.

Se você ler “Ética a Nicômaco” vai perceber que Aristóteles nunca toma uma posição definitiva sobre o que é moralmente aceitável ou não (salvo assassinato, roubo e adultério, se não me engano), esse tipo de escolha sempre cabe ao indivíduo dada as suas condições atuais. E até onde sei, seu motor imóvel não tem um “plano” para nós.

Em Platão, da mesma forma, nada nunca é definido de forma positiva (diferente de uma doutrina religiosa). Os diálogos platônicos (que têm Sócrates como personagem) são sempre aporéticos, o que significa que encaminham a pessoa à dúvida, são negativos, ou seja, te levam a contestar tuas posições conceituais sem te dar nenhuma posição definitiva. Alguns poderiam decidir não procurar, suspender o juízo como os céticos (que viviam de acordo com as regras da polis por acharem que não tínhamos acesso a verdades), ou deixar de se importar com questões abstratas e ter uma vida simples e de acordo com a natureza como os cínicos.

Outro ponto importante é: os gregos não pensavam na alma como separada do corpo, apenas Platão especula sobre assunto e quando o faz trai a espírito socrático fugindo da dialética para o dogma. Mas sua especulação é tosca e esta mais parecida com um conceito reencarnacionista do que com um inferno ou paraíso eternos como no cristianismo.

Mas enfim, cara, você tem razão quanto a discutir estas coisas.
Não foi minha intenção parecer agressivo é o meu jeito de defender meu ponto de vista. Filosofia é um conceito caro pra mim, eu sempre serei crítico quanto ao uso dessa expressão, espero que você não leve isso pro lado pessoal.