Maldade do mundo e Deus.



Há pouco me deparei com esta foto. Espero que ela lhe esteja causando náuseas e tristezas profundas; espero que as suas entranhas estejam reviradas, e o seu coração comovido. Essa foto retrata a indiferença do ser humano diante da morte e da destruição. Pergunte-se: O que leva uma pessoa a usar a foto de uma criança morrendo para propagar a sua mensagem ateísta? Que apelo desesperado e emotivo é este? Fotos assim não deveriam existir muito menos serem propagadas. Peço perdão aos leitores por ter de usá-la.

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Supostamente, o autor da imagem estava querendo provar três pontos, os mesmos de Epícuro. A foto nos passa estas três mensagens imediatas: (1) Deus não existe, porque se existisse, não permitiria que tais coisas acontecessem. (2) Se Deus existe então Ele não se importa, e (3) se Ele se importa, porque não acaba com essas coisas?

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O “problema da maldade” nunca foi um problema racional, mas sim emocional. Não é que não entendemos como pode haver tanta desgraça no mundo se um Deus bom e amoroso existe. Claro que entendemos: somos livres, e cada escolha nossa tem conseqüências; Deus respeita a nossa liberdade. O problema real é suportar a dor de ver um mundo assim. Então como é mais fácil jogar a culpa da desgraça no outro, jogamo-la em Deus, e assim, culpamos Ele de não existir.

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Mas vamos por partes.

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Primeiro quero tratar especificamente da foto acima. Essa foto não prova a inexistência de Deus, apenas reafirma. Vou seguir a lógica da foto, analise:

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(1) Dizer que Deus não existe porque as pessoas sofrem, é a mesma coisa que dizer que engenheiros não existem porque os prédios caem; que os relojoeiros não existem porque os relógios quebram ou que os projetistas não existem porque os carros batem. Esses acidentes não provam que não exista um criador por detrás, apenas provam que algo de errado aconteceu. Se o carro existe, alguém o projetou e o criou. Carros não aparecem do nada, prédios e relógios também não! Veja bem, um prédio não é conseqüência de “tempo + matéria + chance”; não é conseqüência da erosão do vento e da chuva batendo contra uma montanha. Um prédio apresenta sinais de inteligência. Inteligência é produto da mente; mente é vinculada ao pensamento; apenas um ser pode pensar, e todo ser pensante tem uma vontade.

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Imagine-se chegando a um planeta desconhecido e encontrando uma biblioteca cheia de livros. A primeira coisa que ficaria claro, é que “há vida inteligente neste planeta”, pois livros não são o produto da evolução do papel através dos anos, mas sim sinal da inteligência de alguém que o escreveu. Quando vejo a foto do carro acidentado, não duvido da existência do projetista, apenas entendo que algo de errado aconteceu; alguém foi imprudente e bateu o carro. O fato de nós sermos seres viventes é prova suficiente da existência de Deus. Lembre-se da mais importante lei da biogênese: vida gera vida. Portanto esta foto não prova a inexistência de Deus, antes, prova que Ele existe, mas também que algo de errado aconteceu.

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(2) Agora você deve estar dizendo: Mas então Deus é o culpado por permitir essas coisas! Será? Por acaso foi Deus que comeu a comida desse menino? É Deus que joga comida fora todo dia? É Deus que come tanto ao ponto de morrer obeso? Deus é o ganancioso? É Deus que enriquece às custas do sofrimento dos outros? É Deus que tem mais do que precisa; que come mais do que agüenta; que tem mais roupas do que tempo para usá-la; que tem mais dinheiro do que tempo para gastá-lo? Você tem certeza que o real culpado pelo nosso sofrimento é Ele? São as escolhas dEle que nos matam? Foi Deus que tirou essa foto, escreveu esse título e saiu pela internet se gabando pela sua intelectualidade? Não gente! A culpa é nossa, é muito nossa! Nós usamos a liberdade para matar e destruir. E saiba que a culpa não é das grandes empresas e das mega corporações, a culpa é sua! Gandhi disse: “quem tem mais do que precisa está roubando”. John Wesley disse: “Nós nos vestimos com a nudez do pobre e comemos com o sangue do escravo”. Se você pode me afirmar que tem apenas aquilo que você precisa e é uma pessoa extremamente generosa, então você pode culpar os outros. “Aquele que não tem pecado algum” lance a primeira acusação, de modo contrário, fique calado, chore e faça algo.

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O culpado pela batida do carro não é do projetista, mas sim do motorista imprudente. A culpa de esse menino ter morrido de fome não é de Deus, é nossa. Nós comemos a comida dele; nós usamos as nossas capacidades para ter demais; para explorar aquele continente coitado.

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(3) “Mas então por que Deus, sendo bom, não acaba com a maldade?”, deixarei Ed René Kivitz responder essa por mim. Texto retirado do artigo “Teodicéia”: Deus não é uma impossibilidade filosófica. Deus e o sofrimento do mundo são coerentes “...Isso faz todo o sentido. Um Deus que viesse ao encontro das pessoas em trajes onipotentes chegaria para se impor e reivindicar obediência irrestrita, impressionando pela sua majestade e força sem iguais. Jung Mo Sung adverte que “a contrapartida do poder é a obediência, enquanto a contrapartida do amor é a liberdade”. Também assim pensou o apóstolo Paulo, ao afirmar que o que constrange as pessoas a viver para Deus é o amor de Deus (demonstrado na morte de Jesus na cruz), e nunca o poder de Deus.
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Na verdade, “Deus não tinha escolha”. Ao decidir criar o ser humano à sua imagem e semelhança, deveria criá-lo livre. Desejando um relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada. Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor dá liberdade para que o outro seja livre, inclusive para rejeitar o amor que se lhe quer dar....Você já imagina onde quero chegar. Isso mesmo, entre a onipotência e a bondade de Deus existe a liberdade do homem, e o compromisso de Deus em respeitar esta liberdade. Isso ajuda a entender porque existe tanto sofrimento no mundo. O mal não procede de Deus e não é promovido ou determinado por Deus. O mal é conseqüência inevitável da liberdade humana, que teima em dar as costas para Deus e tentar fazer o mundo acontecer à sua própria maneira. Diante do mal e do sofrimento, o Deus com os homens, encarnado em Amor, também sofre, se compadece, tem suas entranhas movidas de compaixão.
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Mas você poderia perguntar por que razão Deus não acaba com o mal. Isso é simples: Deus não acaba com o mal porque o mal não existe, o que existe é o malvado. O mal não é uma entidade ao lado de Deus. O mal é o resultado de uma ação humana em afastar-se do Deus, sumo bem. O monoteísmo cristão afirma que há um só Deus, e que o mal é a privação da presença de Deus. Os cristãos não somos dualistas que postulamos a existência do bem e do mal. O mal é apenas a ausência do bem. Por isso, o mal não existe, o que existe é o malvado, aquele que faz surgir o mal porque se afasta de Deus, o supremo e único bem.
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Ariovaldo Ramos me ensinou assim, e completou dizendo que “para acabar com o mal, Deus teria que acabar com o malvado”. Mas, sendo amor, entre acabar com o malvado e redimir o malvado, Deus escolheu sofrer enquanto redime, para não negar a si mesmo destruindo o objeto do seu amor. Por esta razão Deus “se diminui”, esvazia-se de sua onipotência, abre mão de se relacionar em termos de onipotência-obediência, e se relaciona com a humanidade com base no amor...”
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Concluo com isto: “você que aponta o dedo e culpa Deus pelo sofrimento do mundo, ao fazer isso, se torna culpado da mesma acusação, pois comete o pecado que condena”. Fotos e mensagens assim não provam nada além da maldade do homem e do desvio que tomamos do plano de Deus.

Comentários

Fernanda Prates disse…
"Quem tem mais do que precisa está roubando..."Estou refletindo nisso...
E quantas vezes oramos, pedimos coisas a Deus para o nosso próprio deleite...Pedimos e pedimos mal...Precisamos aprender a nos contentar e dividir com outros...Chocante essa imagem, faz brotar lágrimas nos olhos...
A Caminhada disse…
Caros irmãos e irmãos,

Queria começar o post parabenizando a vocês pelo blog. Achei-o ao buscar no google algo sobre maldade e Deus no mundo e vi que o nossos blogs tratam do mesmo assunto: falar sobre Fé e Deus.

Como só li dois artigos seus (ótimos por sinal), percebi que temos uma abordagem um tanto quanto diferente, pois descobri como ser cristão (li o artigo de vocês e achei muitíssimo coerente) dentro de minha religião e a amo (ela tem me ajudado a amar e obedecer cada vez mais a Jesus).

Sei que ela tem muitas falhas e pessoas falhas, pois é assim como nós, santa e, ao mesmo tempo, pecadora.

Que Deus, nos ajude, iluminados pelo Espirito Santo, a buscar um mundo onde cada vez mais pessoas também possam conhecer, amar e obedecer ao seu filho único, Jesus.