Cessar-fogo



Há um tempo já venho conversando com alguns amigos sobre este assunto, e agora gostaria de registrar algumas conversas e idéias.

--

Situação: Desde que comecei a me importar com Deus, parece que a situação lá em casa piorou, como pode isso? Como devo agir diante das discussões, acusações e contrariedades?

--

As respostas para essas perguntas parecem óbvias, não parecem? Pois é, mas de tão óbvias passam a ser desprezadas. Um sábio Judeu disse “O óbvio é desprezado por ser óbvio. Por não alisarmos as respostas simples acabamos perdendo a profunda sabedoria que elas carregam”. Então vamos considerar a problemática e pensar numa solução.

--

Dividirei o texto em duas partes, dedicarei cada parte para cada uma das questões.

--

Parte I: “Desde que comecei a me importar com Deus, parece que a situação lá em casa piorou”. Esse é um fato observável, comprovável e atestado por muitos. [Quem caminha com Cristo sabe do que estou falando]. A parte mais incrível a respeito dessa questão, é que ela é verdadeira; realmente acontece assim! Tenho como prova o meu caso, o de irmãos na fé, amigos, familiares, colegas e conhecidos. Não estou falando sobre algo que pressuponho acontecer, estou falando de algo que vi (e vejo) acontecer repetidas vezes na vida de muitos. Conheço casos de que os pais, sabendo que o filho se drogava e bebia, diziam: “É só uma fase! Vai passar”, e assim tratavam os vícios do filho de uma forma despreocupada e inconseqüente. Mas no momento que o filho jogou isso tudo fora e começou a freqüentar estudos bíblicos, alegaram: “Agora meu filho está perdido para a religião! Lavagem cerebral!”. Conheço alguns casos onde pais são completamente indiferentes com os vícios e a autodestruição do filho, mas fervorosos e militantes contra a sua fé.

--

Engraçado não? Enquanto nós nos destruíamos pelas calçadas da cidade e acordávamos com vômito e dor de cabeça, “é só uma fase, passa”, mas quando dobramos nossos joelhos para orar, ou oramos antes de comer, somos tachados de loucos e fanáticos. Fumar, cheirar, beber sem limites e “pegar” todas? Sem problema! “Isso passa!”. Abrir uma Bíblia e ler? “É coisa de bichinha; coisa de mulherzinha. Vê se vira homem!”. Parece que todo aquele que tenta viver uma vida digna e virtuosa, é prontamente rotulado de religioso, fanático, louco, castrado, escravizado...entre outros elogios.

--

No meu caso, houve um parente meu que me disse: “Você deveria aproveitar mais a vida, e não se preocupar tanto com essas coisas aí”. A minha resposta foi: “Tudo bem. Então me ensine a aproveitar a vida. O que é aproveitar para você? Não houve resposta.

-- [A seguinte parte é uma resposta a crítica que recebi: Mais tu tamêin não pódi nada!!]

[Muitos que não crêem acham que nós, cristãos, somos “castrados” e “escravizados” pelas nossas “regras”. Ora, cite para mim um prazer que o não-cristão tem, que um cristão não possa ter também. Transar? Ora, claro que posso, apenas decidi não transar com tudo aquilo que respira; decidi ser fiel e exclusivo a uma. Decidi tratar do sexo como coisa de adulto, e não passatempo de criança! Beber? Quem te fez pensar nisso? A religião? Eu apenas aprendi a beber, não uso mais dela para ter coragem de fazer aquilo que em sã consciência eu não faria! (Jesus não condenou a bebida, condenou a bebedeira). Festas? Pessoalmente, eu amo uma boa festa, apenas fujo de lugares onde as pessoas agem como animais no cio. Nós cristãos, preferimos uma festa com a luz acesa, onde a gente sabe onde coloca a mão; onde a gente consegue entender o que o outro está dizendo, e onde nós não precisamos pular por cima do vômito alheio para chegar no banheiro. Fumar? [Continue fumando, e se daqui há uns 20 anos você continuar achando o cigarro “divertido”, eu lhe concedo este argumento!]. Namorar? Podemos! A diferença é que nós namoramos a garota, e não a sua genitália. Sou escravo da religião? Não. Sou livre do vício! Escravo é aquele que não consegue se divertir sem seu vício predileto. No momento que eu dependo de coisas, lugares e substâncias para me divertir, não sou mais livre, e sim escravo daquilo que me dá prazer. “A verdade nos libertou”, e hoje, “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém; tudo nos é lícito, mas não nos deixamos dominar por nenhuma coisa”, e esta é a nossa alegria: Desfrutar da vida com vida (e vida em abundância). “Quem de vocês me convence de pecado algum?” -Jesus Cristo.

--

Aqueles que tentam fazer todas as coisas da forma certa e viver uma vida reta diante de Deus, sempre acham oposição dentro da sua casa. Por quê? Ué, uma pessoa que tenta fazer tudo da maneira certa, incomoda aquele que faz tudo da maneira errada; uma vida reta expõe uma vida torta. A luz resplandece nas trevas trazendo à tona todas as obras da escuridão; A luz aborrece as trevas. A retidão de uns é a condenação de outros. Digamos que você dizia muitos palavrões, assim como todos na sua casa, e de repente, da noite para o dia, ninguém mais escuta uma injúria saindo de sua boca, e ainda percebem em você certo desconforto com tal linguajar. Obviamente se sentirão mal pelo fato de você conseguir evitar essas palavras e eles não. Neste caso específico, o seu silêncio e o seu desconforto denunciá-los-ão. São por essas coisas que “a situação só parece piorar”. Onde habita a luz, não habita escuridão. A vontade de agradar a Deus de um, aborrece a vontade de agradar a carne, do outro. E assim a coisa vai. [A simples presença de Jesus era motivo de desconforto para muitos. Houve até os que pediram para Jesus se retirar de perto deles, pois a sua presença –e não as suas palavras- os condenavam]

--

Não entendam isso que escrevi como “sou tão santo, que as pessoas se sentem condenadas ao meu redor”. Não! Mas o Espírito que habita em mim aborrece o espírito do mundo. Quando a glória de Deus é manifestada, as trevas se dissipam e a carne definha. Quero deixar bem claro: Não é a minha presença que traz desconforto às trevas, mas é a presença daquele que habita em mim!! Jesus disse “que no homem não há luz”. Nós somos chamados para, de certa forma, apenas refletir a luz de Cristo; para repetir suas palavras; para imitar o seu exemplo, portanto se as trevas se aborrecem com a nossa presença, não é a nossa presença que as incomoda (afinal homens e trevas andaram juntos por milênios sem se incomodarem), mas é a presença do Seu Espírito; Sua Palavra; Sua Imagem e Sua Semelhança. (Se há em nós algo louvável, não tem nada a ver conosco, é dom de Deus) – Idéia de Ariovaldo Ramos.

--

“Se me perseguiram, perseguirão vocês também”. Permitam-me parafrasear essa fala de Jesus. “Se me encheram o saco, encherão o saco de vocês também”. Então “por que as coisas só pioram lá em casa?”. Possível e muito provavelmente, se você estiver “vivendo retamente”, no Evangelho, é por causa das suas escolhas (uma escolha certa denuncia a escolha errada, assim aborrecendo aquele que escolhe).

--

Parte II: “Como devo agir diante das discussões, acusações e contrariedades?”. Simples! Da maneira que t-o-d-o-s sabem que é a certa, mas ninguém tem vontade de pô-la em prática. Deus “escreveu suas leis em nossos corações”, aposto que a maioria das respostas para essa pergunta será a resposta certa. “Como devo agir?”: “Combatendo o mal com o bem” - “Dando a outra face” – “Sofrendo o dano em si mesmo” – “Perdoando” – Engolindo o sapo. Se alguém lhe ofender, não ofenda de volta. Se alguém lhe ridicularizar, não revide. Se alguém entisicar, aprenda a se controlar, não ceda à provocação. Tiago disse que “Aquele que domina a língua, é mais valente do que aquele que domina uma cidade”. É difícil, MUITO difícil se controlar na hora da discussão, especialmente com pai e mãe, todavia, é o que Cristo espera que nós façamos. Se seu pai, sua mãe, irmãos, amigos, namorada ou parentes não têm a capacidade mental para agir como um adulto, então seja você o adulto.

--

Aprenda a sofrer de boca calada. De fato, nós não sabemos mais sofrer, os cristãos modernos não sabem mais lidar com a dor e o sofrimento. Aprenda a sofrer! Considere isto: Quem está sem Cristo, sofre e não tem consolo, todavia você tem Cristo, você tem consolo. Sofra o dano; sofra a vergonha; sofra a desmoralização, mas não faça o outro sofrer; não envergonhe; não desmoralize. (Como aprendi com uma irmã querida: Que todos pequem contra mim, mas que eu não peque contra ninguém) Você acha justo pedir para o ímpio sofrer no seu lugar?

--

Se você tem problemas com seus pais, aprenda a lidar com eles de uma forma amável. Não é o fim do mundo –“Mas você não entende, com os meus pais é diferente”. Não! Não é! Você que não está querendo entender! Deixe de ser vítima e aprenda o exemplo de Cristo, que por mais cheio de razão que Ele estava, por mais certo que Ele estava, Ele não usou o seu poder e autoridade para demonstrar que estava certo, antes, se esvaziou da sua glória, habitou entre os homens, e se deixou escarnecer; deixou ser humilhado e morto. Para que nós não precisássemos sofrer esse dano, Ele sofreu por nós. Agora vai e faz o mesmo! Por amor aos seus amigos, deixe eles rirem de você, apenas ame-os incondicionalmente e ore por eles! Por amor a sua família, não tente provar nada, apenas tenha paciência, ore e dê um bom testemunho dentro de casa. Por amor ao seu cônjuge, sofra o dano, aprenda a não mais reivindicar a razão, mas com palavras doces, com amor e paciência (assim como Deus te trata), trate seu cônjuge. Lembre-se: O seu caso não é o pior. “Ninguém me entende” e “comigo é diferente” não são argumentos que prevalecem diante de Deus.

--

Homens! Aprendam a ser homens e sofram no lugar dos outros. Mulheres! Sofram de boca fechada. Saiba que quem entisica e zomba, não está disposto a escutar nada, então não perca o seu tempo, sua saliva e a sua paciência, apenas não revide e ore pela pessoa.

--

Peça a Deus converter a raiva e a falta de paciência que pulam do seu coração na hora da discussão, em amor e misericórdia. Aprenda a ter misericórdia dos outros. Misericórdia: Pena da miséria alheia. Entenda que aquele que zomba, ri, entisica, aborrece e se incomoda com a sua fé, é um coitado, não no termo pejorativo, por favor, não entendam isso, mas sim, ele é miserável. Pois para sentir-se seguro e com razão ele precisa ridicularizar; de alguma forma ele precisa se sentir superior e com razão, mas como não o é, então rebaixa a pessoa, que ele vê, como “superior”. É miserável e coitado porque se refugia na própria crítica, assim se convencendo por argumentos de zombaria, que ele está certo e que você é o louco insensato. Não tenha raiva, tenha pena. Pratique a misericórdia com quem precisa.

--

Gostaria de escrever um pouco além do tema proposto e explicar a necessidade da oração nessas situações. (Repare que várias escrevi “e ore”). Depois de Jesus, um dos maiores exemplos, humanos, da não violência, e de “dar a outra face” que conhecemos é Mahatma Gandhi. Toda a sua doutrina da não-violência foi grandemente motivada pelos ensinos do sermão do monte (não apenas, mas grandemente). Gandhi tinha uma profunda admiração por Jesus Cristo. O motivo de ele não ter se declarado como “discípulo de Cristo”, em outras palavras, cristão, foi por causa dos cristãos! A Inglaterra contra qual ele se opunha era uma Inglaterra cristianizada, que reprimia e usurpava os indianos “em nome de Deus” e em favor da monarquia (Palmas ao cristianismo). Mas sabemos que “não podemos julgar uma filosofia pelos seus abusos”, portanto não se entregar a Cristo por causa dos abusos feitos em nome de Cristo, é a mesma coisa que não comprar um carro porque esse atropela pessoas. “Mas se Gandhi conseguiu ser tão misericordioso e tão bom sem Cristo, precisamos de Cristo?” Depois de ter estudado (na verdade ainda estou estudando) a biografia de Gandhi, ficou evidente uma coisa. Toda vez que ele considerava ter fracassado em ter mais misericórdia, ou em ter feito o bem, ele se punia com jejuns que beiravam a morte. Como todo homem, ele também errou, e várias vezes, a diferença é que ele não buscou o perdão, e sim a punição (“autoflagelação”, o que os católicos romanos faziam, e fazem muito). Gandhi se punia com jejuns extremamente rigorosos e se privava de muitos prazeres. “Mas Ele conseguiu fazer o bem sem Cristo!”. Verdade! Mas fazer o bem não cura doença, e o homem está doente, “enfermo pelo pecado”. Há vários exemplos de várias pessoas “das quais este mundo não foi digno”, reconheço isso e admiro muito cada um deles. O exemplo de Gandhi foi um dos maiores (espero que vocês entendam que não estou menosprezando o seu exemplo, muito pelo contrário). Deus, que é Deus, vai saber lidar com eles justamente.

--

A diferença toda está aqui: Não adianta conter o fogo, temos que apagá-lo! De vários grandes mestres humanos nós aprendemos a conter o fogo que consome a nossa alma; a conter a maldade e o ódio que habita o nosso ser. Aprendemos que com muito esforço (repito, muito mesmo), podemos conter o fogo que está lutando para sair de nós e destruir tudo ao nosso redor. Então, através de vários sacrifícios e concessões podemos nos libertar de um “ego” faminto e latente (e para alguns, não existente), e fazendo assim, nós conseguimos achar força para conter tal fogo. Mas todo bombeiro sabe que não adianta só conter o fogo, tem que apagá-lo.

--

Por mais que você comprima uma mola de ferro com as mãos, um dia a sua força acaba, e a mola vai sair pulando. Por mais que você aprenda a ter autocontrole, um dia, devido à determinada circunstância, você vai acabar perdendo a paciência. Claro que vai! E daí, tudo aquilo que você aprisionou e reprimiu durante tanto tempo, pulará para fora; todo o fogo que você conteve, virá flamejando para fora e destruirá tudo ao seu redor, e você, por culpa, se punirá severamente, tentando assim achar favor diante de Deus. (Mas se você de fato quiser agradar a Deus com os seus esforços, faça o seguinte, viva perfeitamente e se entregue numa cruz em favor de outros). A técnica da não-violência de Gandhi (inspirada nos ensinos do sermão do monte, e alguns conceitos do hinduísmo, religião que ele rejeitou por causa da maldade das castas) melhora muita coisa. Sim! Melhora! Mas não resolve. Jesus não oferece mais regras para conter a maldade interior, Ele oferece uma natureza nova, livre dessa escravidão. Aqui está a diferença fundamental. Cristo ofereceu “apagar esse fogo”, enquanto muitos mestres humanos nos ensinaram a “conter esse fogo”.

--

Por isso eu tanto insisti na palavra “orar”, não adianta apenas suportar o escárnio e sofrer o dano diante de uma discussão, precisamos que Deus nos liberte do impulso de revidar que provém do nosso coração! Se Deus não transformar e consolar o nosso coração, mais cedo ou mais tarde nós explodiremos, e tudo aquilo que reprimimos (como disse Freud) virá para fora!

--

Não reprima o seu “eu” interior, nós sabemos onde isso vai dar. Mate o seu “eu”. Crucifique-o. E depois de morto, peça para Jesus te dar um novo.

--

Guilherme Adriano

Comentários

Flavio disse…
Olá!

“A verdade nos libertou”, e hoje, “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém; tudo nos é lícito, mas não nos deixamos dominar por nenhuma coisa”

Você pode me informar em qual evangelho, qual capítulo e versículo, você tirou esta citação? Isso tem um paralelo muito interessante com idéias do budismo Zen que estou estudando, se você puder me informar ficaria muito grato. E, outra coisa, em qual evangelho se encontra o "Sermão da montanha" é em Mateus ou Lucas?

Desde já, obrigado!

Gassho!
Guilherme disse…
1 Coríntios Capítulo 6, versículo 12.

Sermão está em Mateus, apartir do capítulo 5.

Em Lucas tem também, mas está espalhado em várias partes, em Mateus está em uma parte só.

Por nada.
Flávio disse…
Coríntios!! Você saberia me informar de quantos anos antes de Cristo é esse livro?

Sem querer ser chato, já sendo :D

E muito obrigado!

gassho!
Flávio disse…
Esquece a pergunta aí de cima, Coríntios é do Novo Testamento, Paulo de Tarso, certo? Confundi com um dos livros do pentateuco.

E desculpe o chat nos comentários outra vez XD
Guilherme disse…
Opa..sem problemas!

Sim, coríntios é de Paulo de Tarso, novo testamento, 1 século.
Don disse…
Olá!

Gostei muito deste post, Guigo.

Como está estudando sobre Gandhi, gostaria de indicar uma das outras fontes dele (duas delas falasse no texto, Cristo e hinduísmo).

Gandhi também foi influenciado por Helena Blavatsky, mulher russa que fundou a Sociendade Teosófica, que estudava esoterismo, religião comparada, entre outras coisas. Parece que o que despertou a atenção de Gandhi para o hinduísmo mais especificamente foi o livro "A Chave para a Teosofia". Não tenho este livro, mas tenho outros dois da Blavatsky, se quiseres ler algum dia, me fale (tenho o "A Voz do Silêncio" e "Fundamentos da Filosofia Esotérica").

Um abraço.