Aborto




Quero escrever sobre esse assunto não porque tenho algo a dizer a favor ou contra, mas porque não aguento mais o que esses pastorecos ficam publicando e dizendo a respeito. Primeiro, por mais que os liberais simpatizem com minha posição e os mais tradicionais se revoltem, devemos deixar bem claro que a Bíblia não fala sobre aborto nem quando a vida começa no útero. A Bíblia afirma o valor do ser humano, e só. Quem é a favor sabe defender seu ponto de vista coerentemente com a Bíblia tanto quanto quem é contra. Pela Bíblia esse assunto não se resolve, ponto.

Aliás, o que a Bíblia deveras afirma é que os pequeninos estão já na mão do Senhor, “pois deles é o Reino”, logo, essas crianças mortas em abortos estão com Ele. Então não seria muito mais razoável discutir como tratar uma mãe que sofre o aborto ao invés de acusá-la de infanticídio?

Eu já vi muita marcha contra aborto e manifestações na frente de clínicas, mas nunca vi cristãos esperando às portas de clínicas para abraçar, consolar e redimir quem de lá sai arrasada. É esse tipo de moralismo que Jesus não tinha que a cristandade está cheia e que me causa repulsa! Marcham contra a maconha, contra o casamento homossexual e contra o aborto, mas fumam cigarro, bebem cerveja, maltratam suas mulheres e negligenciam seus filhos. Vão se preocupar com suas esposas e filhos e parem de meter o dedo no vício dos outros, pois eles, sim, têm o direito de serem pecadores.

O que vou dizer agora pode até soar estranho e pode ser mal entendido por muitos, então, por favor, preste bem atenção no que vou dizer e não no que acham que direi: Jesus Cristo nunca violou o nosso direito de pecar! Jesus Cristo nunca passou ao estado leis que proibissem os homens de serem viciados!

Se dividirmos o pecado em três categorias, como muitos cristãos fizeram, se não me engano, inclusive Agostinho, saberemos lidar melhor com essas questões complicadas. Divido o pecado em

1) Pecado moral: são pecados cometidos apenas em minha alma (olhos pervertidos, inveja, raiva, ciúmes, ganância, etc.). Tais pecados danificam quase exclusivamente a pessoa que os comete. Quem olha mulheres com impureza sofre o dano de seus pecados somente em si; quem se rói de inveja perturba a própria alma e definha; quem queima de ciúmes peca, primeiramente, contra si por não confiar; o ganancioso se destrói pela cobiça de seu coração, etc.   

2) Pecado autodestrutivo: são pecados cometidos contra si mesmo e às vezes outros que destroem tanto físico quanto espiritual (bebedeira, drogas e outros vícios, imoralidade sexual, etc.). Tais pecados destroem o corpo, mente e alma de quem os comete e possivelmente dos que estiverem ao seu redor. Quem bebe muito acaba se matando, e pode levar alguém junto; quem se entrega às drogas arruína o próprio corpo e a vida, possivelmente dos que estão por perto também; a imoralidade sexual machuca o corpo e alma de quem se entrega a ela.

3) Pecado criminoso: são pecados cometidos contra o outro (matar, roubar, etc.).

Em suma, fase um: eu peco contra mim. Fase dois: peco contra mim e possivelmente contra o outro. Fase três: peco contra os outros. O problema do cristão está sendo o de tratar pecados da fase um e dois com a severidade que se tratam os da fase três.

Então, quais dessas categorias de pecados devem ser consideradas crimes passivos de punição e repreensão legal?

Vamos lá, imagine-se olhando para uma mulher com olhos lascivos e ser condenado a 3 meses de prisão por isso, ou pagando uma multa de 100 reais por ter raiva de seu patrão. O que acha disso? Devemos incluir pecados morais em nosso código penal? Que tal a segunda categoria; você acha que um vício autodestrutivo deve ser sempre freado pelas rédeas do governo? Se eu quiser enfiar um garfo no meu olho, devo ser preso? Talvez devêssemos tornar garfos ilegais, assim não conseguiria mais enfiá-los em meus olhos. Seria possível conter um vício reprimindo-o por lei? Funcionou a lei seca da década de 20 a 30 nos Estados Unidos? Dizer, “fumou, cadeia!”, resolveu a questão no Brasil? Pois é...no entanto, consigo pensar em exemplos quando esses pecados se tornam crimes, onde o abuso do álcool e o uso de substâncias levam à morte de inocentes. Acho que a categoria três não precisa ser discutida.  

Digam-me, por exemplo, o que senão a moralidade cristã sai prejudicada com a legalização do casamento homossexual? Para a cristandade, há pecado, mas onde está o crime? Por que deveria ser impedido por lei? Como que o impedindo nas cortes é ajudar alguém? Cristãos, digam-me, o que é mais danoso em sua mentalidade, a pessoa, o indivíduo ser homossexual ou a reputação do matrimônio ocidental? Será, então, que não estamos debatendo uma questão puramente moral, da fase um, em termos legais, da fase três? E a maconha? E o aborto?

Certamente o aborto é mais sério que fumar maconha ou inclinação sexual, sem sombra de dúvidas! No entanto, o segundo maior erro dos cristãos sobre o aborto é deixar o assunto ser debatido principalmente por homens. Quando um homem puder ser invadido e manchado pelo sêmen de um porco estuprador, daí sim eu vou levar em consideração o que ele diz sobre o aborto. Quando um homem puder sofrer o trauma de abrigar um ser indesejável que carrega a imagem e semelhança do desgraçado que condenou uma criança ao útero de uma pobre mulher, daí esse homem terá meus ouvidos. Até lá, trupe de pastorecos que vive escrevendo textinho de aborto, discutir quando pode e não pode, quando a vida começa, se feto sente ou não dor, se quem aborta é ou não condenado, se deveria ser legalizado ou não, é não só improdutível, mas uma desconsideração para com as mulheres.

Ao invés de se manifestar e marchar contra, que tal correr pra ajudar quem passou por isso? Que tal amar, consolar e redimir essas mulheres? Que tal dar consolo e não julgamento? Aliás, quem além de Deus conhece o coração, as dores e desesperos de uma mulher que decide abortar a ponto de passar julgamento a respeito de suas decisões? Não estou me colocando a favor do aborto, apenas tentando redirecionar a polêmica.

Outra ideia ainda! Pastores, cedam o púlpito para as vítimas de estupro e incesto, deixem elas falarem. Deixem moradoras de favela falar da realidade de onde vivem e o que pensam sobre o aborto. Deixem as mulheres conversar e decidir essas questões, afinal, são elas que passam por isso, não?

Enquanto que são as mulheres que tentam da maneira menos danosa resolver a questão para que fiquem de acordo com o que creem e o que Deus pensa, os homens ficam apenas legislando teoria para se agradarem de sua teologia sistemática.

Então não vou dizer se sou contra ou a favor do aborto, mas vou dizer isto: sou contra os homens decidirem isso. Mulheres, por mim, o púlpito, o Espírito e a Palavra são de vocês. Digam, escrevam, preguem e publiquem o que pensam. Enquanto isso, nós, homens, vamos estar lá pra consolá-las, redimi-las, influenciá-las na medida em que nos permitirem e interceder.

Aborto é uma questão complicada, mas mais complicado ainda é não deixar quem passa por ele decidir o que se fazer e como lidar com o assunto.

Guilherme Adriano

Comentários

Ivi Campos disse…
Apenas minha opinião, nada científico ou comprovado estatisticamente: Se uma sociedade legaliza o fato de que uma mãe pode matar seu filho, esta sociedade é hipócrita ao tentar coibir outro tipo de homicídio.
Um abraço!
antonio rs disse…
Você fala como se esse assunto estive sendo tratado por mulheres "comuns", e não por pressão do movimento feminista que tem um desejo incontrolavel de legalizar o aborto, entre outras coisas.

Não ha essa historia de "estão pensando com Deus" amigo, a maioria até atéia é, e muitas ateias militantes. Você tem bons posts mas é um tanto inocente nesse aspecto, achando que se trata de ações individuais.
1 - Você é homem, e é exatamente disso que estou dizendo.

2 - Então as ateias são imorais por serem ateias e não sabem decidir?

3 - Há tal coisa como uma mulher incomum? O que seria uma mulher comum?

4 - Ações coletivas, Antonio, são apenas um monte de ações individuais!

Obrigado pelo comentário...